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Dom, Jul

entreguismo

  • Faz um ano neste domingo que o ex-presidete Lula está encarcerado em Curitiba. É um preso político, na opinião de inúmeros juristas brasileiros, bem como políticos, sindicalistas e personalidades de todo o mundo. Ele foi condenado sem provas e com base em uma delação premiada arrancada a fórceps pelo juiz Sergio Moro, hoje ministro de Jair Bolsonaro. Convém lembrar que o empresário delator, Leo Pinheiro, tinha feito um depoimento oposto antes, inocentando Lula. Mudou de opinião por pressão de Moro e como condição para recuperar a liberdade.

    Na verdade a condenação e prisão do maior líder popular da história do Brasil, respaldada por forças e interesses poderosos, foi mais um capítulo do golpe de Estado de 2016, patrocinado pelas classes dominantes e na qual a Operação Lava Jato, com o providencial apoio da mídia hegemônica, dempenhou papel central. Moro foi recompensado com o Ministério da Justiça.

    A injustiça cometida contra o ex-presidente contraria o principio constitucional de presunção da inocência, que só permite a subtração da liberdade do cidadão depois do chamado trânsito em julgado, ou seja, depois de esgotados todos os recursos, o que não é o caso. A prisão em segunda instância é uma afronta à Constituição, tema de recorrentes polêmicas e assunto pendente no Supremo, cuja maioria é hoje formada por defensores da presunção de inocência.

    O tema estava na pauta da Corte para nova análise por essas dias. A julgar pela expectativa dominante, deveria prevalecer a proibição da prisão sem o trânsito em julgado, decisão que implica na libertação de Lula. Na quinta-feira, o presidente do STF, ministro Dias Toffoli, que havia incluído a questão na pauta e anunciou que mudou de ideia e resolveu adiar o processo sobre prisão após julgamento em segundo instância. Seu gesto - oposto ao pensamento do relator da matéria, ministro Marco Aurélio - foi atribuído pelo jornalista Ricardo Noblat à pressão dos militares, que voltaram a dar as cartas em Brasília pelas mãos de Bolsonaro, 34 anos depois do fim do malfadado regime instalado em 1º de abril de 1964.

    Agenda golpista

    A interdição da candidatura do maior líder popular da história do Brasil foi essencial para a eleição de Jair Bolsonaro, que se tornou o queridinho do mercado (sobretudo dos capitalistas estrangeiros) ao lado do seu “posto Ipiranga”, o Paulinho Tchutchuca. Com Lula na parada o capitão da extrema direita não seria eleito, conforme indicavam todas as pesquisas de opinião à época.

    A vitória do candidato do PSL foi o coroamento do golpe de 2016 e a garantia da continuidade e aprofundamento da agenda regressiva inaugurada pelo usurpador Temer, fundada numa ofensiva sem paralelo do capital contra o trabalho, no desrespeito ao Estado Democrático de Direito e na abjeta submissão aos EUA.

    Este conteúdo reacionário da orientação política imposta desde 2016, traduzido na reforma trabalhista, no novo regime fiscal, na maior abertura do pré-sal, é agora acentuado por Jair Bolsonaro. Ele consumou a virada entreguista na política externa transformando o Brasil em colônia de um império decadente, quer acabar com os sindicatos e impor uma reforma previdenciária desumana e perversa com os mais pobres.

    A luta pela libertação de Lula e por um julgamento justo vai ganhar corpo com o crescimento da resistência dos movimentos sociais, das forças democráticas, patrióticas e progressistas do nosso país ao retrocesso político e à degradação do Estado nacional. A bandeira do Lula Livre será agitada nas ruas e vai ajudar a colorir as manifestações do nosso povo em defesa da democracia, da soberania e dos direitos sociais.

    Umberto Martins

  • Durante a reunião do G-20, que ocorre nesses dias em Osaka (Japão), o presidente Jair Bolsonaro tentou transmitir a imagem de defensor da soberania nacional ao rebater críticas da chanceler da Alemanha, Angela Merkel, à desastrosa política do seu governo para o meio ambiente, repudiada não só no exterior como principalmente no interior do Brasil. 

    O líder da extrema direita falou grosso e acusou governantes anteriores de atitudes servis na relação com potências estrangeiras. Mas sua conduta mudou completamente no encontro que manteve com o presidente dos Estados Unidos, seu ídolo maior, o bilionário Donald Trump, que com ele comunga um vasto universo de concepções e iniciativas reacionárias.

    O servilismo é tamanho que o capitão reformado já declarou apoio ao projeto de reeleição de Trump e prometeu comprometer ainda mais o Brasil com a política imperialista de isolamento, chantagens, ameaças e sanções contra Cuba e Venezuela. É emblemático o fato dele ter prestado continência à bandeira dos EUA em Washington e visitado a sede da famigerada CIA quando por lá esteve.

    Nunca será demais lembrar que o imperialismo americano, com o qual o atual governo se alinha de forma vexaminosa, contrária aos interesses nacionais e à tradição do Itamaraty, é um inimigo histórico dos povos e nações latino-americanas e caribenhas. No Brasil esteve por trás dos golpes de 1964 e 2016, perpetrados pelas forças conservadoras contra a classe trabalhadora, a democracia, a soberania e as organizações e personalidades progressistas. 

    A política externa de Jair Bolsonaro alia o entreguismo ao obscurantismo e é motivo de vergonha nacional e de piada internacional.

    Umberto Martins 

  • Por Joaquim de Carvalho, no DCM

    Bolsonaro embarca para Washington, com uma agenda que não atende aos interesses da Nação brasileira

    Um dos assuntos que Jair Bolsonaro tratará com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é a Amazônia, que faz parte do território brasileiro.

    Os detalhes da pauta não foram divulgados, mas assessores de Bolsonaro adiantaram que fará parte das conversas a atuação das ONGs na região.

    Por que Bolsonaro levará ao líder de uma potência estrangeira assunto que caberia ao Brasil resolver, soberanamente?

    A resposta, ele mesmo deu durante a campanha, quando, em mais de um encontro, disse que Amazônia não é território brasileiro.

    Em um vídeo postado hoje nas redes sociais, ele afirmou:

    “Tenho me aproximado do governo americano, sim. Já tive reuniões com embaixadores. O que eu tratei? A Argentina falou que as Malvinas eram deles em 1982 e… perderam! A Amazônia é nossa? Com todo respeito, só uma pessoa que não tem qualquer cultura fala que é. Não é mais nossa.”

    Em outro encontro, na Federação das indústrias do Rio Grande do Norte, ele destacou:

    “Temos que nos aproximar — infelizmente, eu tenho que falar para os senhores isso — belicamente nuclear e democrático. Não tem outro caminho.”

    E repetiu o discurso da Argentina, que, soberanamente, reivindicou a propriedade das Malvinas.

    “Como começar a reverter isso? Como eu disse, vamos nos aproximar de países bélicos, nuclear, democrático, uma potência, e há interesse por parte desse país e nosso, podemos buscar parcerias. E não adianta dar uma de machão e levantar a espada e dizer: ‘A Amazônia é nossa’. Não é. Com muita tristeza, eu digo isso, como capitão do Exército brasileiro, como cidadão, como patriota, mas é uma realidade. E temos como explorar, em parceria, esta região”, discorreu.

    Na época, Bolsonaro era candidato, cidadão sem as prerrogativas de presidente, e nessa condição poderia, numa interpretação extrema, ser enquadrado na Lei de Segurança Nacional — de 1983, sancionada no período da ditadura militar.

    Diz a legislação, em seu artigo 9o., que constitui crime contra a segurança nacional:

    “Tentar submeter o território nacional, ou parte dele, ao domínio ou à soberania de outro país.”

    A pena prevista: reclusão, de 4 a 20 anos.

    Como presidente da república, se levar adiante essa intenção, Bolsonaro comete crime de responsabilidade, como define o artigo 5o., inciso 2, da lei 1.079 de 1950:

    “Tentar, diretamente e por fatos, submeter a União ou algum dos Estados ou Territórios a domínio estrangeiro, ou dela separar qualquer Estado ou porção do território nacional.”

    No pacote que levará a Trump, Bolsonaro também tratará do arrendamento da Base de Alcântara, no Maranhão, o local privilegiado para lançamento de satélites, outra medida que foi tentada no governo de Fernando Henrique Cardoso e foi rejeitada pelo Congresso Nacional, por representar ameaça à soberania do país.

    Bolsonaro também avança o sinal quando cogita oferecer a Trump o ingresso de cidadãos ao território brasileiro sem visto — com a concordância de que aos brasileiros que tentarem o caminho inverso será mantida a restrição.

    A medida, em si, é vexatória, mas não ilegal. Porém, somada a outras declarações dele, dadas durante a campanha, podem representar outra violação da lei que define os crimes de responsabilidade, o de atentar contra a dignidade do Brasil (artigo 5o, inciso 6: celebrar tratados, convenções ou ajustes que comprometam a dignidade da Nação).

    Em uma das ocasiões em que anunciou a convite que faria aos Estados Unidos para ajudar a explorar a Amazônia, ele atacou os brasileiros, ao dizer que o Brasil é um lixo.

    “Eu vejo imbecis dizendo: Olha a França que coisa linda, uma seleção multirracial. Vamos colocar 10 milhões aqui de venezuelanos ou do pessoal do norte da África para ser campeão, quem sabe, em 2022 ou 2026. Que legal, hein? A gente bota mais 20 milhões aqui dentro, como encheram de haitianos aqui em São Paulo. Lá no plenário um petralha gritou: ‘Se fosse da Suécia, você não estava criticando. Ô imbecil, tu acha que o da Suécia vai querer esse lixo aqui”.

    A seu lado, Eduardo Bolsonaro, atualmente presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados, aplaudiu.

    Eduardo Bolsonaro adaptou o discurso do pai hoje, já em Washington, quando declarou, como se fosse da Comissão de Relações Exteriores dos Estados Unidos, e não do Brasil:

    “O brasileiro que vem para cá de maneira legal é bem-vindo. Brasileiro ilegalmente fora do país é problema do Brasil, é vergonha nossa”.

    A comitiva liderada por Jair Bolsonaro, que falará em nome do Brasil diante das autoridades americanas, não se comporta como representante de um país soberano.

    Não é exagero dizer que fazem o papel de traidores da Nação brasileira.

    Isso, sim, é uma vergonha.

  • Por Umberto Martins, editor do Portal CTB

    Presenciamos nesses dias um dos capítulos mais indignos da história do Brasil. O presidente Jair Bolsonaro acaba de desempenhar nos EUA o papel de um governante vassalo, completamente subserviente ao bilionário Donald Trump, um líder de extrema direita que não goza de boa reputação na chamada comunidade internacional, nem mesmo entre os mais tradicionais aliados de Washington.

    O espírito de vira-lata (descoberto por Nelson Rodrigues) baixou com tal desenvoltura no capitão reformado que escandalizou até o jornalista Marco Antonio Villa, um colunista conservador acostumado a criticar diuturnamente o PT. “Esta viagem está sendo desastrosa”, comentou, classificando de “absurdo o que está sendo feito. Você se alia aos EUA e não vai receber nada. É necessário acabar com essa subserviência”.

    Com efeito, Bolsonaro sentou no colo de Donald Trump e cedeu praticamente a todos os desejos do seu chefe e ídolo. Entregou a estratégica base aérea de Alcântara (MA), disse que o Brasil “está a postos” para servir de bucha de canhão numa possível intervenção militar do imperialismo na Venezuela, acenou com a internacionalização da Amazônia, reduziu tarifas de importação de trigo e abriu o mercado para carne suína estadunidense.

    Ele também liberou visto para turistas provenientes daquele país sem qualquer contrapartida e humilhou brasileiros imigrantes apoiando a política xenófoba de Trump, incluindo a construção do chamado “Muro da Vergonha” na fronteira com o México. Chegou ao ponto de declarar que a grande maioria dos imigrantes “não tem boas intenções”.

    Como se não bastasse, sinalizou com apoio à estratégia do imperialismo contra a China, nossa maior parceira comercial que já se transformou na maior economia do planeta, condição que a coloca naturalmente numa rota de colisão com os EUA, que querem manter a qualquer preço a hegemonia sobre a geopolítica global.

    Contra os interesses nacionais

    Orientada pela mais tosca das ideologias, a política externa do governo Bolsonaro está na contramão da história e também dos interesses nacionais. Não é preciso grande esforço intelectual para perceber que ao longo da história universal, a política imperialista dos Estados Unidos, inaugurada no século 19,  contrariou os interesses dos povos e das nações, sobretudo na América Latina e Caribe, região considerada como um mero “quintal” por Washington, mas igualmente no Oriente Médio, na África, Ásia e mesmo na Europa.

    No Brasil, os Estados Unidos estiveram desde sempre aliados às forças sociais mais obscurantistas e reacionários para combater as forças progressistas e sabotar o desenvolvimento nacional. Foram as “forças subterrâneas” denunciadas por Getúlio Vargas, levado ao suicídio em 1954, enviaram uma frota para garantir o golpe militar de 1964, que depôs João Goulart, e deixaram fortes impressões digitais no golpe de Estado de 2016, travestido de impeachment.

    Grampearam a ex-presidente Dilma Rousseff e municiaram a Lava Jato com informações sobre a Petrobras e a Odebrecht colhidas por suas agências de espionagem. Convém lembrar que Sergio Moro, acusado de ser um “agente dos EUA” pelo jurista Fábio Konder Comparato, fez questão de visitar com Bolsonaro a sede da CIA em Washington. Na América Latina os EUA estiveram por trás dos sangrentos golpes de Estado no Chile (liderado por Augusto Pinochet em 1973), na Argentina (1975) e outros países.

    Uma das contrapartidas ao espetáculo de vira-latismo, destacado com ironia pelo jornal “Washington Post”, foi o aval do governo norte-americano ao ingresso do Brasil na decadente OCDE, considerada falsamente por apologistas do capitalismo neoliberal como um “clube dos ricos”. Mas nem mesmo isto está em sintonia com os interesses nacionais, pois nos impõe prejuízos, uma vez que tal associação (descartada por Lula e por Dilma) está condicionado à perda de vantagens no comércio exterior conferidas aos países considerados em via de desenvolvimento, como tarifas diferenciadas para proteger a indústria e ramos sensíveis da economia.

    Uma potência em declínio

    Conquistada no bojo da Segunda Guerra Mundial e traduzida nos acordos celebrados na cidade estadunidense de Bretton Woods em 1944, a hegemonia dos EUA tem por principal fundamento a sua força econômica, que ao término da carnificina era indiscutível. Mas hoje em dia este poder está em franco declínio, em função do parasitismo enraizado no American Way of life (modo de vida americano) e, em igual ou maior medida, do desenvolvimento desigual das nações, uma lei da história moderna, refletida nas disparidades das taxas de crescimento dos PIBs, que resultou na fulminante ascensão da China.

    A ação desses fatores ao longo das últimas décadas promoveu transformações de vulto na economia mundial e na correlação de forças entre as grandes potências, conduzindo ao deslocamento da produção industrial, e por extensão do poder econômico, do chamado Ocidente (leia-se EUA, Europa e Japão) para o Oriente, e principalmente dos Estados Unidos para a China.

    Isto também significa o esgotamento da ordem mundial fundada na hegemonia do dólar e liderada pelos EUA, o que se desdobra objetivamente num processo de transição global na direção de uma nova ordem internacional, que a julgar pelos propósitos declarados por Pequim e Moscou deve ser orientada pelo respeito ao direito dos povos e nações à autodeterminação, à margem de intervenções imperialistas, bem como pelo multilateralismo, ou seja, sem hegemonismo e unilateralismo, como é o caso da atual.

    A sabujice que guia a política externa de Bolsonaro vai na contramão deste movimento, e por isto na direção oposta ao novo cenário geopolítico que está sendo desenhado pela história. A subordinação do Brasil aos EUA seria um gesto vil e desprezível em qualquer momento da nossa história, mas é um contrasenso que pode nos custar caro especialmente no atual contexto, em que os EUA nada têm a nos oferecer senão mais exploração e sofrimento.

    Hostilizando a China, por outro lado, temos muito a perder e já começamos a acumular prejuízos. O gigante asiático, que absorve 26% das exportações brasileiras (mais do que o dobro dos EUA, que ficam com apenas 12%), já reduziu e suspendeu investimentos bilionários no Brasil em reação às provocações do governo de extrema direita. Agora está restringindo as compras de produtos oriundos do agronegócio, para desespero dos nossos ruralistas, que já manifestam arrependimento pelo entusiasta e pouco racional apoio que deram ao golpe de 2016 e a eleição do capitão fascista.  

     

  • Por Umberto Martins, editor do Portal CTB

    Presenciamos nesses dias um dos capítulos mais indignos da história do Brasil. O presidente Jair Bolsonaro acaba de desempenhar nos EUA o papel de um governante vassalo, completamente subserviente ao bilionário Donald Trump, um líder de extrema direita que não goza de boa reputação na chamada comunidade internacional, nem mesmo entre os mais tradicionais aliados de Washington.

    O espírito de vira-lata (descoberto por Nelson Rodrigues) baixou com tal desenvoltura no capitão reformado que escandalizou até o jornalista Marco Antonio Villa, um colunista conservador acostumado a criticar diuturnamente o PT. “Esta viagem está sendo desastrosa”, comentou, classificando de “absurdo o que está sendo feito. Você se alia aos EUA e não vai receber nada. É necessário acabar com essa subserviência”.

    Com efeito, Bolsonaro sentou no colo de Donald Trump e cedeu praticamente a todos os desejos do seu chefe e ídolo. Entregou a estratégica base aérea de Alcântara (MA), disse que o Brasil “está a postos” para servir de bucha de canhão numa possível intervenção militar do imperialismo na Venezuela, acenou com a internacionalização da Amazônia, reduziu tarifas de importação de trigo e abriu o mercado para carne suína estadunidense.

    Ele também liberou visto para turistas provenientes daquele país sem qualquer contrapartida e humilhou brasileiros imigrantes apoiando a política xenófoba de Trump, incluindo a construção do chamado “Muro da Vergonha” na fronteira com o México. Chegou ao ponto de declarar que a grande maioria dos imigrantes “não tem boas intenções”.

    Como se não bastasse, sinalizou com apoio à estratégia do imperialismo contra a China, nossa maior parceira comercial que já se transformou na maior economia do planeta, condição que a coloca naturalmente numa rota de colisão com os EUA, que querem manter a qualquer preço a hegemonia sobre a geopolítica global.

    Contra os interesses nacionais

    Orientada pela mais tosca das ideologias, a política externa do governo Bolsonaro está na contramão da história e também dos interesses nacionais. Não é preciso grande esforço intelectual para perceber que ao longo da história universal, a política imperialista dos Estados Unidos, inaugurada no século 19,  contrariou os interesses dos povos e das nações do Terceiro Mundo, sobretudo na América Latina e Caribe, região considerada como um mero “quintal” por Washington, mas igualmente no Oriente Médio, na África, Ásia e mesmo na Europa.

    No Brasil, os Estados Unidos estiveram desde sempre aliados às forças sociais mais obscurantistas e reacionários para combater as forças progressistas e sabotar o desenvolvimento nacional. Foram as “forças subterrâneas” denunciadas por Getúlio Vargas, levado ao suicídio em 1954; enviaram uma frota para garantir o golpe militar de 1964, que depôs João Goulart, e deixaram fortes impressões digitais no golpe de Estado de 2016, travestido de impeachment.

    Grampearam a ex-presidente Dilma Rousseff e municiaram a Lava Jato com informações sobre a Petrobras e a Odebrecht colhidas por suas agências de espionagem. Convém lembrar que Sergio Moro, acusado de ser um “agente dos EUA” pelo jurista Fábio Konder Comparato, fez questão de visitar com Bolsonaro a sede da CIA em Washington. Na América Latina os EUA estiveram por trás dos sangrentos golpes de Estado no Chile (liderado por Augusto Pinochet em 1973), na Argentina (1975) e outros países.

    Uma das contrapartidas ao espetáculo de vira-latismo, destacado com ironia pelo jornal “Washington Post”, foi o aval do governo norte-americano ao ingresso do Brasil na decadente OCDE, considerada por apologistas do capitalismo neoliberal como um “clube dos ricos”, o que já não corresponde aos fatos. Tal associação, embora celebrada pela mídia, tampouco está em sintonia com os interesses nacionais, pois nos impõe prejuízos, uma vez que (descartada por Lula e por Dilma) está condicionada à perda de vantagens no comércio exterior conferidas aos países considerados em via de desenvolvimento, como tarifas diferenciadas para proteger a indústria e ramos sensíveis da economia.

    Uma potência em declínio

    Conquistada no bojo da Segunda Guerra Mundial e traduzida nos acordos celebrados na cidade estadunidense de Bretton Woods em 1944, a hegemonia dos EUA tem por principal fundamento a sua força econômica, que ao término da carnificina era indiscutível. Mas hoje em dia este poder está em franco declínio, em função do parasitismo enraizado no American Way of life (modo de vida americano) e, em igual ou maior medida, do desenvolvimento desigual das nações, uma lei da história moderna, refletida nas disparidades das taxas de crescimento dos PIBs, que resultou na fulminante ascensão da China.

    A ação desses fatores ao longo das últimas décadas promoveu transformações de vulto na economia mundial e na correlação de forças entre as grandes potências, conduzindo ao deslocamento da produção industrial, e por extensão do poder econômico, do chamado Ocidente (leia-se EUA, Europa e Japão) para o Oriente, e principalmente dos Estados Unidos para a China.

    Isto também significa o esgotamento da ordem mundial fundada na hegemonia do dólar e liderada pelos EUA, o que se desdobra objetivamente num processo de transição global na direção de uma nova ordem internacional, que a julgar pelos propósitos declarados por Pequim e Moscou deve ser orientada pelo respeito ao direito dos povos e nações à autodeterminação, à margem de intervenções imperialistas, bem como pelo multilateralismo, ou seja, sem hegemonismo e unilateralismo, como é o caso da atual.

    A sabujice que guia a política externa de Bolsonaro vai na contramão deste movimento, e por isto na direção oposta ao novo cenário geopolítico que está sendo desenhado pela história. A subordinação do Brasil aos EUA seria um gesto vil e desprezível em qualquer momento da nossa história, mas é um contrasenso que pode nos custar caro especialmente no atual contexto, em que os EUA nada têm a nos oferecer senão mais exploração e sofrimento.

    Hostilizando a China, por outro lado, temos muito a perder e já começamos a acumular prejuízos. O gigante asiático, que absorve 26% das exportações brasileiras (mais do que o dobro dos EUA, que ficam com apenas 12%), já reduziu e suspendeu investimentos bilionários no Brasil em reação às provocações do governo de extrema direita. Agora está restringindo as compras de produtos oriundos do agronegócio, para desespero dos nossos ruralistas, que já manifestam arrependimento pelo entusiasta e pouco racional apoio que deram ao golpe de 2016 e à eleição do capitão fascista.  

     

  • Por Paulo Kliass*

    Além de ter completado a tão esperada marca de 100 dias sem nenhuma medida concreta a ser anunciada, o governo do capitão iniciou a sua peregrinação rumo ao ducentésimo dia no Palácio do Planalto com um conjunto impressionante de trapalhadas e de ameaças na área da economia.

    O primeiro ponto foi o anúncio inusitado e destrambelhado pelo Super Ministério da Economia de que o governo iria promover a privatização dos Correios. Uma loucura! Entregar um serviço estratégico como esses, em um país com dimensões continentais como o nosso, em mãos de alguma multinacional do ramo ou algum fundo financeiro que visa única e exclusivamente à obtenção de lucros para seus acionistas. Mas essa batalha ainda vai ser longa, pois o próprio Presidente da Empresa de Correios e Telégrafos, (ECT) nomeado por Bolsonaro, já presentou resistências à intenção desse liberalismo entreguista.

    Privatizações na agenda

    Em seguida, não satisfeito com os prejuízos à sua popularidade derivados de tal maldade, a equipe econômica ainda se sai com outra. No caso, trata-se do eterno retorno à pauta da Petrobrás. Sabe-se que Paulo Guedes tem por missão primeira a destruição completa de todo e qualquer resquício de setor público em nosso país. Assim, para além da entrega das reservas de petróleo antigas e das novas do Pré Sal para as multinacionais petroleiras, agora seu encarregado de liquidação das estatais federais anuncia que o governo pretende vender a metade das refinarias em posse da nossa gigante do ramo de petróleo e gás.

    Ora, a experiência brasileira em momentos anteriores e os relatórios e estudos a respeito de processos de outras nações que trilharam o mesmo percurso são pródigos em expor as mazelas de tal aventura irresponsável. A transferência de patrimônio público ao setor privado raramente cumpre com as pretensões iniciais de quem as promove. Os valores de venda são depreciados, seja por conta da venda ocorrer em momentos de crise (o valor das ativos está em baixa por toda economia), seja por falcatruas explícitas na avaliação do valor das empresas estatais a serem generosamente oferecidas ao capital privado (o caso escandaloso da Cia Vale do Rio Doce não sai da memória de ninguém!). O nível de endividamento do Estado não se soluciona. O nível dos serviços prestados à população tampouco ganha em qualidade.

    Caminhoneiros em alerta

    Ainda na mesma semana, o noticiário não deixa de mencionar as articulações em torno do movimento dos caminhoneiros. Nesse caso também fica escancarada a dificuldade do governo do capitão em lidar com setores que lhe deram apoio estratégico durante o processo eleitoral em outubro passado. Bolsonaro prometeu mundos e fundos para todos, provavelmente por acreditar que Deus estaria acima de tudo e lhe apontaria as soluções para esse tipo de problema complexo.

    Porém, a realidade é dura. Os liberaloides no comando na economia tanto criticaram a política de preços praticada antes do golpeachment de Dilma Roussef que conseguiram emplacar Pedro Parente na presidência da empresa ainda em maio de 2016. Desde então a ideia de jerico de indexar os preços internos dos derivados ao movimento dos preços do petróleo no mercado internacional não sai da cabeça de ninguém que esteja no comando por ali. Para esse povo que não tem mais do que uma planilha na cabeça, importar um modelito de livro de introdução básica à microeconomia para solucionar dilemas de política econômica, fiscal e energética parece uma diversão de videogame.

    Para os arautos do livre mercado, o preço do diesel praticado no posto do interior do Mato Grosso deve subir a cada elevação do óleo por decisão da OPEP. Uma loucura! Inclusive porque o Brasil teria plenas condições de produzir boa parte do combustível que necessita - basta que os dirigentes da Petrobrás voltem atrás na esdrúxula opção por reduzir a capacidade de refino em suas unidades de produção.

    Além dessa decisão equivocada, os aprendizes de liberalismo de botequim se recusam a aceitar a reivindicação dos caminhoneiros de algum tipo de tabelamento do frete. Temem esse tipo de “prática intervencionista” assim como o diabo foge da cruz. No entanto, essa equação é mesmo delicada e exige alguma ação pró ativa do Estado na regulação de um conflito em que estão presentes distintos agentes econômicos com interesses contraditórios.

    Dificuldades na Previdência

    Pelo lado da Reforma da Previdência, o governo teve de rever tudo aquilo que Bolsonaro bradava pelos quatro cantos a respeito de sua suposta nova forma de se relacionar com os partidos e com os políticos tradicionais. Aliás, ele mesmo sabia que não poderia ser diferente. Por mais inexpressiva que tenha sido a sua trajetória de quase 30 anos como deputado federal, o capitão defensor da ditadura e da tortura tinha pleno conhecimento de como são articulados os processos na relação do Executivo com o Legislativo. Ainda mais no caso de um presidente sem base parlamentar e que precisa angariar para seus projetos polêmicos no interior do Congresso nacional.

    Está sendo iniciando o processo de compra explícita de votos junto ao conhecido Centrão para obter a aprovação da chamada “mãe de todas as reformas”. E ainda estamos na etapa inicial da longa tramitação, pois a CCJ da Câmara dos Deputados nem analisa o mérito das proposições de alteração da Constituição. A batalha promete ser longa e as sucessivas quedas de popularidade do presidente desde a sua posse refletem bem as dificuldades que virão. Os obstáculos tenderão a se avolumar para que as intenções iniciais de destruição da previdência social propostas por Paulo Guedes sejam referendadas pelos parlamentares.

    Mas aí sempre surge alguém para complicar ainda mais a vida do capitão. Ao mesmo tempo em que o governo faz um esforço enorme para vender uma ideia mentirosa de que sua proposta vem em favor dos menos favorecidos, as entidades do movimento social e os verdadeiros especialistas do tema revelam o contrário. Algum marqueteiro experiente inclusive sugeriu ao núcleo do Planalto que não usasse o termo “reforma”, mas sim “nova previdência”. E no meio dessa tal da “disputa de narrativa” acerca do verdadeiro sentido da PEC 06/2019, eis que vem a público uma entrevista do recém nomeado presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), agora vinculado ao todo-poderoso ministro da economia. Nada mais adequado do que a imagem de um elefante na loja de cristais.

    Sincericídio do Presidente do IPEA

    Carlos von Doelinger é um economista liberal e conservador das antigas. É aposentado pelo IPEA, mas não se enrubesce em descer o pau na instituição que agora dirige. Tanto que pretende contratar uma consultoria bem remunerada da sua querida FGV para justificar a intenção de desmonte da instituição. Afinal, para ele discutir questões como desenvolvimento, instituições, política de gênero e outros temas fora da agenda do austericídio são desperdício de dinheiro público, “não tem nada a ver”. Orgulhoso do título que criou para si mesmo, ele se apresenta como um “matusalém” da turma dos então “boys” de Chicago. Formou-se antes mesmo de Paulo Guedes e declara apoio total às medidas sugeridas pelo novo/velho chefe. A ponto de reconhecer que a PEC tem um efeito destruidor para a maioria do povo brasileiro

    (...) “Já a reforma da Previdência tem por trás, vamos dizer entre aspas, um saco de maldades. Vai atingir o velho, o aposentado. É mais complicada politicamente (..) mexe com a vida das pessoas e isso cria embate político perfeitamente compreensível.” (...)

    Semaninha difícil essa para o capitão no departamento da economia. Isso sem contar as intermináveis seções de bateção de cabeça entre seus filhos e Olavo de Carvalho, de um lado, e o vice Mourão como representante dos militares de sua equipe, por outro. Mas eis que o próprio governo resolve colocar uma cereja no bolo envenenado da tramitação da PEC 06. As altas esferas bolsonarianas decidem que não podem ser divulgados os estudos, as estatísticas e as informações utilizadas pela equipe econômica para elaborar o pacote das maldades previdenciárias.

    Uma loucura! Além de não conseguir sustentar esse tipo de censura por muito tempo nessa época de acesso às informações, tal postura autocrática só confirma as suspeitas que vínhamos levantando há muito tempo. Afinal, não existem dados oficiais que sejam capazes de oferecer o menor apoio às intenções de desmonte da nossa previdência social. Quando vierem a público, será mais uma etapa de dificuldades para Paulo Guedes & Cia. As projeções mentirosas e catastrofistas sobre o fim do mundo não ficarão em pé. A economia anunciada de R$ 1 trilhão ficará desnudada como uma farsa, pois recairá apenas sobre a retirada de direitos dos mais pobres.

    Enfim, aguardemos as próximas etapas da tramitação. O governo superou a fase preliminar da CCJ. Mas as manifestações de Primeiro de Maio poderão servir como elemento balizador do andamento no interior da Comissão Especial que deverá ser instalada em breve.

    *Paulo Kliass é doutor em Economia pela Universidade de Paris 10 e Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal.

     

    Com informações de vermelho.org.br