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Ter, Jun

Hitler

  • A prisão de Assange é uma advertência da História

    Por John Pilger*

    A prisão de Julian Assange pela polícia britânica e no interior da embaixada do Equador tem muitos aspectos verdadeiramente repugnantes, desde a traição de Lenin Moreno [atual presidente do Equador] às mentiras com que essa violação do direito de asilo tentou justificar-se. O crime de Assange é divulgar fatos verdadeiros sobre como se comporta a criminosa elite que hoje comanda a maior parte do mundo. E, com Assange, são criminalizadas a difusão da verdade e a dignidade do jornalismo.

    Entrever Julian Assange sendo arrastado da embaixada equatoriana em Londres é emblemático do tempo que vivemos. O poder contra o direito. O músculo contra a lei. A indecência contra a coragem. Seis policias maltratam um jornalista doente, cujos olhos piscam face à primeira luz natural em quase sete anos.

    Que esse ultraje tenha acontecido no coração de Londres, na terra da Magna Carta, deveria envergonhar e irritar todos os que dizem temer pelas sociedades “democráticas”. Assange é um refugiado político protegido pelo direito internacional, objeto de asilo ao abrigo de um acordo estrito do qual a Grã-Bretanha é signatária. As Nações Unidas clarificaram-no na decisão jurídica do seu Grupo de Trabalho sobre Detenção Arbitrária.

    Mas para o diabo com isso. Deixem entrar os rufias. Dirigida pelos quase fascistas da Washington de Trump, em aliança com o equatoriano Lenin Moreno, um mentiroso Judas latino-americano procurando disfarçar o seu rançoso regime, a elite britânica abandonou o seu derradeiro mito imperial: o da honestidade e da justiça.

    Imaginem Tony Blair a ser arrastado da sua casa georgiana de muitos milhões de libras em Connaught Square, Londres, algemado, para ser enviado para a enxovia em Haia. Pelos padrões de Nuremberg, o “crime supremo” de Blair é a morte de um milhão de iraquianos. O crime de Assange é o jornalismo: responsabilizar os rapinantes, expor as suas mentiras e capacitar com a verdade as pessoas em todo o mundo.

    A chocante prisão de Assange comporta um aviso para todos os que, como Oscar Wilde escreveu, “costuram as sementes do descontentamento [sem as quais] não haveria avanço para a civilização”. O aviso é explícito para os jornalistas. O que aconteceu com o fundador e editor do WikiLeaks pode acontecer consigo num jornal, num estúdio de TV, na rádio, consigo executando um podcast.

    O principal atormentador midiático de Assange, o Guardian, um colaborador do Estado secreto, manifestou o seu nervosismo esta semana com um editorial que atingiu novas alturas no servilismo das ratazanas. O The Guardian explorou o trabalho de Assange e do WikiLeaks naquilo que o seu editor anterior chamou de “o maior furo dos últimos 30 anos”. O jornal apropriou-se das revelações do WikiLeaks e reivindicou os elogios e as riquezas que vieram com isso.

    Com nem um centavo indo para Julian Assange ou para o WikiLeaks, um elogiado livro do Guardian levou a um lucrativo filme de Hollywood. Os autores do livro, Luke Harding e David Leigh, voltaram-se contra a sua fonte, abusaram dela e revelaram a senha secreta que Assange havia dado ao jornal em sigilo, que fora concebida para proteger um arquivo digital contendo telegramas vazados de embaixadas norte-americanas.

    Com Assange retido na embaixada equatoriana, Harding juntou-se à polícia no exterior e regozijou-se no seu blog que “a Scotland Yard pode ser a última a rir”. O The Guardian publicou desde então uma série de falsidades sobre Assange, não menor do que uma alegação sem qualquer crédito de que um grupo de russos e o homem de Trump, Paul Manafort, tinham visitado Assange na embaixada. Essas reuniões nunca aconteceram; era Fake News.

    Mas o tom agora mudou. “O caso Assange é uma teia moralmente emaranhada”, opinou o jornal. “Ele (Assange) acredita em publicar coisas que não deveriam ser publicadas…Mas trouxe sempre à luz coisas que nunca deveriam ter sido escondidas”.

    Essas “coisas” são a verdade sobre o modo homicida como os EUA conduzem as suas guerras coloniais, as mentiras do Ministério das Relações Exteriores britânico na sua negação de direitos a gente vulnerável, como os ilhéus de Chagos, a denúncia de Hillary Clinton como apoiante e beneficiária do jihadismo no Médio Oriente, a descrição detalhada de embaixadores norte-americanos sobre como os governos da Síria e da Venezuela poderiam ser derrubados, e muito mais. Está tudo disponível no site do WikiLeaks.

    O Guardian está compreensivelmente nervoso. Policias secretos já visitaram o jornal e exigiram e conseguiram a destruição ritual de um disco rígido. Nisto o jornal tem experiência. Em 1983 uma funcionária do Ministério do Exterior, Sarah Tisdall, vazou documentos do governo britânico que mostravam quando chegariam à Europa as armas nucleares de cruzeiro norte-americanas. O Guardian foi regado com elogios.

    Quando uma ordem judicial exigiu conhecer a fonte, em vez de o editor ir para a prisão em defesa do princípio fundamental de proteção de uma fonte, Tisdall foi traída, processada e cumpriu seis meses de prisão.

    Se Assange for extraditado para os EUA por publicar o que o Guardian chama de “coisas” verdadeiras, o que impedirá o atual editor, Katherine Viner, de fazer o mesmo, ou o editor anterior, Alan Rusbridger, ou o prolífico propagandista Luke Harding?

    O que impedirá os editores do New York Times e do Washington Post, que também publicaram trechos da verdade com origem no WikiLeaks, e o editor do El Pais na Espanha, e o Der Spiegel na Alemanha e o Sydney Morning Herald na Austrália. A lista é longa.

    David McCraw, advogado principal do New York Times, escreveu: “Penso que a acusação [de Assange] seria um precedente muito mau para os editores… de tudo o que eu sei, ele parece estar na posição clássica de um editor e a lei teria muita dificuldade em distinguir entre o New York Times e o WikiLeaks. ”

    Mesmo que os jornalistas que publicaram os vazamentos do WikiLeaks não sejam intimados por um júri norte-americano, a intimidação de Julian Assange e Chelsea Manning já será suficiente. O jornalismo real está a ser abertamente criminalizado por rufias. A dissidência tornou-se um devaneio.

    Na Austrália, o atual-embrutecido governo está a processar dois informadores que revelaram que os espiões de Canberra montaram escutas nas reuniões do gabinete do novo governo de Timor-Leste, com o propósito expresso de vigarizar a pequena e empobrecida nação quanto à parte do petróleo e recursos de gás no Mar de Timor que lhe é devida. O julgamento será realizado em segredo. O primeiro-ministro australiano, Scott Morrison, tem o infame reconhecimento da sua participação na criação de campos de concentração para refugiados nas ilhas do Pacífico de Nauru e Manus, onde crianças se auto-mutilam e se suicidam. Em 2014, Morrison propôs campos de detenção em massa para 30.000 pessoas.

    O jornalismo real é o inimigo dessas desgraças. Há uma década, o Ministério da Defesa em Londres produziu um documento secreto que descrevia as três principais ameaças à ordem pública: terroristas, espiões russos e jornalistas investigadores. Esta última era designada como a maior ameaça.

    O documento foi vazado para o WikiLeaks, que o publicou. “Não tivemos escolha”, disse-me Assange. “É muito simples. As pessoas têm o direito de saber e o direito de questionar e desafiar o poder. É isso a verdadeira democracia”.

    E se Assange, Manning e outros da sua linha - se houver outros - forem silenciados e “o direito de saber, questionar e desafiar” for retirado?

    Na década de 1970, conheci Leni Riefenstahl, amiga íntima de Adolf Hitler, cujos filmes ajudaram a lançar a maldição nazi sobre a Alemanha.

    Ela disse-me que a mensagem nos seus filmes, a propaganda, dependia não de “ordens vindas de cima”, mas daquilo que chamava o “vazio submisso” do público.

    “Esse vazio submisso incluiu a burguesia liberal e educada?” Perguntei-lhe.

    “É claro”, ela disse, “especialmente a elite…. Quando as pessoas deixam de colocar perguntas sérias, são submissas e maleáveis. Tudo pode acontecer.”

    E aconteceu.

    O resto, poderia ela ter acrescentado, é história.

    *Jornalista australiano, autor de vários documentários, filmes, livros e reportagens, artigo extraído do Diário.info

  • Com o golpe de Estado em marcha no Brasil, ganha corpo a discussão sobre o projeto “escola sem partido”, que visa amordaçar o ensino brasileiro, chegando a prever prisão para professores que fizerem comentários sobre o conteúdo de suas aulas, sejam elas de que temas forem.

    Tanto que o Senado Federal abriu uma consulta pública sobre o Projeto de Lei do Senado 163/2016, de autoria do senador Magno Malta (PR-ES), da bancada evangélica, que pretende incluir a matéria na Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Até o fechamento desta reportagem, o resultado estava em 122.988 votos a favor e 147.522 contra o PLS.

    Essa proposta nasceu há 12 anos, quando um pai questionou as aulas de história que sua filha recebia. O advogado Miguel Nagib diz que "é fato notório que professores e autores de livros didáticos vêm se utilizando de suas aulas e de suas obras para tentar obter a adesão dos estudantes a determinadas correntes políticas e ideológicas".

    Esse projeto “está no bojo da sustentação ideológica do golpe dessa elite que quer impor ao Brasil os seus interesses e restringir o pensamento a uma única possibilidade “, afirma Isis Tavares, presidenta da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil no Amazonas (CTB-AM).

    Para ela, a ideia de controlar a juventude remonta ao nazismo. “Na Alemanha de Hitler aconteceu exatamente o que querem os defensores dessa proposta. Se os pais não gostassem daquilo que os professores estavam ensinando aos seus filhos, poderiam denunciá-los e os educadores corriam o risco de serem presos”.

    Um levantamento feito pela insuspeita revista “Nova Escola”, da Fundação Victor Civita, questiona os argumentos dos propulsores do projeto ‘escola sem partido’, que ganhou realce com a visita do ator de filmes pornôs, Alexandre Frota ao Ministério da Educação, para sugerir a inclusão dessa proposta na educação brasileira.

    A “Nova Escola” foi ao site do “escola sem partido” e derrubou o argumento de que milhares de pessoas denunciavam professores “doutrinadores” de seus filhos. “O site do movimento registra somente 33” denúncias, num país com “mais de 45 milhões de estudantes”, anuncia a reportagem da revista especializada em educação.

    abaixo lei da mordaca

    Para Camila Lanes, presidenta da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes), “a ‘escola sem partido’, nada mais é do que a escola de apenas um partido, de apenas um lado (o mais conservador de todos), buscando enterrar a diversidade de pensamento natural na busca de conhecimentos e transformando o processo educacional em instrumento de opressão e de censura”.

    Enquanto os organizadores do blog Professores Contra o Escola Sem Partido, que também tem página no Facebook, afirmam que as postulações dos defensores dessa proposta, são amplamente vagas “de maneira proposital”. Mas no fundo, “eles entendem que a escola está dominada por uma ideologia esquerdista e que falta o estudo de autores conservadores, por exemplo, e que os professores ao invés de ensinarem os conteúdos estão doutrinando os alunos para que eles se tornem todos esquerdistas ou gays”.

    Por isso, a chiadeira foi geral quando se aprovou no Plano Nacional de Educação a inserção do debate da questão de gênero nas escolas. “Eles falam de neutralidade política e religiosa. Mas, digamos, quando acontece um caso de racismo na escola, ou de intolerância religiosa, a gente não pode se manifestar contra aquilo porque se tiver alunos cristãos na sala isso irá contra a educação que eles recebem em casa”, argumentam os professores contra esse projeto.

    Já Marianna Dias (Mari), diretora de Relações Internacionais da União Nacional dos Estudantes (UNE), acredita que "a Lei da Mordaça não pode ser encarada como um debate setorial, que diz respeito apenas à educação, à escola ou à universidade”.

    “É uma questão que precisa preocupar a sociedade”, diz Mari, “e isso nos obriga a questionar qual o papel social da educação. A escola não pode ser apenas um ambiente para se aprender a ler, precisa ser um ambiente que forme cidadãos  e que se preocupem com a sociedade, com o país, com a vida e com o mundo”.

    Nesse contexto, Tavares afirma que “quando você bloqueia o acesso ao conhecimento, está cerceando a liberdade e o desenvolvimento consciente das pessoas”. Mari vai de encontro a essa proposta.

    De acordo com ela os estudantes brasileiros querem "uma escola que reflita sobre os nossos anseios, que não reproduza os preconceitos e muito menos limite a nossa liberdade”. Na verdade, acentua ela, “queremos uma escola com arte, cultura, sociologia e esporte. Que nos prepare como agente transformador para que possamos construir um amanhã melhor".

    Tavares complementa ao afirmar que ao contrário do que dizem os defensores do “escola sem partido”, a juventude tem a capacidade de pensar e decidir por si. “Os jovens pensam e a escola deve lhes proporcionar a possibilidade de ampliação do discernimento sobre todas as questões que lhes aflige. Fazer o contrário, sim é doutrinar”.

    Já a líder secundarista, Lanes, diz que “eles (defensores escola sem partido) querem, na verdade, é substituir a liberdade de diálogo e de debate de ideias na sala de aula por uma ideologia conservadora”, argumenta Lanes. Para ela, “o projeto ‘escola sem partido’ é extremamente ideológico! Nele, não existe imparcialidade nenhuma! É a ideologia dos que querem uma população alienada, dos que não querem que a sociedade mude, mas que continue desigual e injusta”.

    A vontade dos defensores dessa ideia, que conta com 12 projetos na Câmara dos Deputados e o PLS de Malta, no Senado, defendem “a intolerância como norma de vida”, reforça Tavares. “Essa proposta visa bloquear o nosso desenvolvimento civilizatório, exatamente como faz o Estado Islâmico quando explode edifícios históricos milenares, só porque são de outros povos e pensamentos”.

    Portal CTB – Marcos Aurélio Ruy

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