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18
Ter, Jun

Meninos sem pátria

  • Por Táscia Souza*

    Dia desses, numa daquelas mesas das publicações em destaque nas livrarias, havia uma edição comemorativa dos 50 anos, completados no ano passado, do romance “Meu pé de laranja lima”, de José Mauro de Vasconcelos. A lembrança das três tardes do fim da infância debruçada na cama sobre aquele livro e das lágrimas derramadas sobre aquelas páginas — na verdade outras, de uma edição bem mais antiga, que até confundia pelos “êles” acentuados já muito fora de lugar — foi imediata, trazendo de novo um sorriso terno e um ardor nos olhos. Memória afetiva tem esse poder. Um livro — desses para “para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o”, como no conto “Felicidade clandestina”, de Clarice Lispector — também.

    Na história de Clarice, o livro quase venerado pela menina-personagem é “As reinações de Narizinho”, cujo autor, Monteiro Lobato, completaria 137 anos hoje. Por causa dele e do seu “Sítio do pica-pau amarelo”, desde 2002, o dia 18 de abril tornou-se o Dia Nacional do Livro Infantil. E, se Lobato anda afastado das escolas sobretudo por sua admiração, como revelam historiadores e estudiosos de literatura, por teorias eugenistas e pelo racismo presente em suas obras, mesmo essa problematização, extremamente necessária e pertinente, revela o potencial crítico que o incentivo à leitura, desde a infância, pode assumir.

    De acordo com a última pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada em 2016 (a próxima deve ser lançada no próximo dia 23, Dia Mundial do Livro), 44% da população brasileira não leem e 30% nunca compraram um livro. No entanto, segundo o mesmo levantamento, adolescentes entre 11 e 13 anos são os que mais leem por gosto (42%), seguidos por crianças de 5 a 10 anos (40%), o que evidencia a potência — e um vasto campo a ser cultivado e incentivado — da literatura na formação infantojuvenil.

    Em contrapartida, livros proibidos, suspensos e retirados das escolas têm sido uma realidade cada vez mais frequente. No segundo semestre do ano passado, a obra “O menino que espiava pra dentro”, de Ana Maria Machado, foi acusada de fazer apologia ao suicídio. Trata-se da história de um garotinho que, fascinado com os contos de fada que lê, busca soluções para desaparecer deste mundo para viver na fantasia. Logo depois, “Meninos sem pátria”, de Luiz Puntel, foi alvo, no Rio de Janeiro, de ataques por suposta “doutrinação de esquerda”, já que história de uma família que vivenciou o exílio durante a ditadura civil-militar no Brasil e o regime ditatorial no Chile. Isso sem falar no livro “Aparelho Sexual e Cia.”, de Philippe Chappuis e Hélène Bruller, sobre a descoberta do corpo na puberdade, o qual foi transformado por Jair Bolsonaro e Cia. em elemento do mítico e inexistente kit gay, fake news que se alastrou como pólvora no WhatsApp durante as eleições.

    Diante dessa cruzada, em que se empunham as mesmas armas brandidas hoje contra os professores, entender e incentivar a leitura — bem como a imaginação e a reflexão que ela ajuda a despertar — como exercício sobre a diversidade e, principalmente, sobre a alteridade (como quem se depara com a pobreza e a amarga doçura de Zezé e seu pezinho de laranja lima pela primeira vez) é fundamental.

    *Assessora de comunicação da Contee