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Ter, Jun

Monteiro Lobato

  • Depois da polêmica provocada na Festa Literária de Paraty (Flip) deste ano envolvendo a falta de escritores negros no evento, a nova curadora da Flip, a jornalista e historiadora Josélia Aguiar, tomou a decisão de homenagear o escritor Lima Barreto.

    Essa homenagem vem em boa hora, porque se há um escritor brasileiro que se possa dizer injustiçado e desprezado, esse é Afonso Henriques de Lima Barreto. Porque a crítica literária da época desprezou a linguagem coloquial utilizada pelo autor para narrar a vida de pessoas comuns.

    O seu livro de estreia, "Recordações do escrivão Isaías Caminha", foi muito criticado por ser considerado “personalista demais”, em vez de verem ali o início da renovação da literatura brasileira.

    A primeira biografia do escritor foi publicada em 1952. O clássico “A vida de Lima Barreto”, de Francisco de Assis Barbosa, conta como o autor carioca sofria com as críticas e o desprezo que a elite sentia por ele.

    Isso tudo porque a sua autodenominada “literatura militante” era confundida muitas vezes como relatos autobiográficos. Porém, Barreto usou sua escrita para denunciar as mazelas da sociedade racista, colonialista e que desprezava o povo.

    Como escreveu o escritor paulista Monteiro Lobato: “De Lima Barreto não é exagero dizer que lançou entre nós uma fórmula nova de romance. O romance de crítica social sem doutrinarismo dogmático. Conjuga equilibradamente duas coisas: o desenho dos tipos e a pintura do cenário. É um revoltado, mas um revoltado em período manso de revolta. Em vez de cólera, ironia; em vez de diatribe, essa nonchalance filosofante de quem vê a vida sentado num café, amolentado por um dia de calor”.

    A curadora da Flip 2017 que vai lançar uma obra sobre o escritor baiano Jorge Amado disse ao El País Brasil que “ele lia muito Lima Barreto nos anos 30 e o considerava ‘o escritor do povo’”.

    Lima Barreto 2

    Filho de ex-escravos, o pai tornou-se tipógrafo, a mãe professora de 1ª à 4ª séries, Lima Barreto dizia sobre si: “Nasci mulato, pobre e livre”. Apadrinhado pelo Visconde de Ouro Preto, tornou-se jornalista e transformou-se em um dos mais importantes escritores brasileiros de todos os tempos.

    Reagiu com sarcasmo à hipocrisia da elite brasileira, que ele considerava preconceituosa. Simpático ao anarquismo inicialmente, impressiona-se com a Revolução Russa, de 1917, então começa a militar na imprensa socialista.

    Afonso Henriques de Lima Barreto nasceu a 13 de maio de 1881, no Rio de Janeiro. Cedo descobriu seus pendores literários e era comumente encontrado na Biblioteca Nacional. Critica com veemência a visão elitista, arrogante, passadista e ufanista de parte dos literatos da época.

    Recusado pela Academia Brasileira de Letras por duas vezes, foi maltratado pela crítica, justamente por ser revolucionário na forma de escrever as vicissitudes do homem comum do povo, com uma linguagem coloquial, que fugia aos padrões elitistas da literatura do início do século 20.

    a vida de lima barreto

    O autor de “Clara dos Anjos”, “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, ”O Homem que Sabia Javanês”, entre outros clássicos foi vencido pelo alcoolismo falecendo aos 41 anos, no Rio de Janeiro, em 1º de novembro de 1922.

    Com essa homenagem, a Flip resolve dois problemas de uma vez só. Coloca em cena os escritores negros, invariavelmente marginalizados, e faz justiça ao talento inovador de Lima Barreto, que trouxe modernidade à literatura brasileira.

    Algumas de suas obras:

    Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909)
    O Homem que Sabia Javanês (1911)
    Aventuras do Dr. Bogóloff (1912)
    Triste Fim de Policarpo Quaresma (1915)
    Numa e a Ninfa (1915)
    Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919)
    Histórias e Sonhos (1920)
    Os Bruzundangas (1922)
    Clara dos Anjos (1948)
    Outras Histórias e Contos Argelinos (1952)
    Contos do Reino de Jambom (1953)

    Portal CTB – Marcos Aurélio Ruy

  • Por Táscia Souza*

    Dia desses, numa daquelas mesas das publicações em destaque nas livrarias, havia uma edição comemorativa dos 50 anos, completados no ano passado, do romance “Meu pé de laranja lima”, de José Mauro de Vasconcelos. A lembrança das três tardes do fim da infância debruçada na cama sobre aquele livro e das lágrimas derramadas sobre aquelas páginas — na verdade outras, de uma edição bem mais antiga, que até confundia pelos “êles” acentuados já muito fora de lugar — foi imediata, trazendo de novo um sorriso terno e um ardor nos olhos. Memória afetiva tem esse poder. Um livro — desses para “para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o”, como no conto “Felicidade clandestina”, de Clarice Lispector — também.

    Na história de Clarice, o livro quase venerado pela menina-personagem é “As reinações de Narizinho”, cujo autor, Monteiro Lobato, completaria 137 anos hoje. Por causa dele e do seu “Sítio do pica-pau amarelo”, desde 2002, o dia 18 de abril tornou-se o Dia Nacional do Livro Infantil. E, se Lobato anda afastado das escolas sobretudo por sua admiração, como revelam historiadores e estudiosos de literatura, por teorias eugenistas e pelo racismo presente em suas obras, mesmo essa problematização, extremamente necessária e pertinente, revela o potencial crítico que o incentivo à leitura, desde a infância, pode assumir.

    De acordo com a última pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada em 2016 (a próxima deve ser lançada no próximo dia 23, Dia Mundial do Livro), 44% da população brasileira não leem e 30% nunca compraram um livro. No entanto, segundo o mesmo levantamento, adolescentes entre 11 e 13 anos são os que mais leem por gosto (42%), seguidos por crianças de 5 a 10 anos (40%), o que evidencia a potência — e um vasto campo a ser cultivado e incentivado — da literatura na formação infantojuvenil.

    Em contrapartida, livros proibidos, suspensos e retirados das escolas têm sido uma realidade cada vez mais frequente. No segundo semestre do ano passado, a obra “O menino que espiava pra dentro”, de Ana Maria Machado, foi acusada de fazer apologia ao suicídio. Trata-se da história de um garotinho que, fascinado com os contos de fada que lê, busca soluções para desaparecer deste mundo para viver na fantasia. Logo depois, “Meninos sem pátria”, de Luiz Puntel, foi alvo, no Rio de Janeiro, de ataques por suposta “doutrinação de esquerda”, já que história de uma família que vivenciou o exílio durante a ditadura civil-militar no Brasil e o regime ditatorial no Chile. Isso sem falar no livro “Aparelho Sexual e Cia.”, de Philippe Chappuis e Hélène Bruller, sobre a descoberta do corpo na puberdade, o qual foi transformado por Jair Bolsonaro e Cia. em elemento do mítico e inexistente kit gay, fake news que se alastrou como pólvora no WhatsApp durante as eleições.

    Diante dessa cruzada, em que se empunham as mesmas armas brandidas hoje contra os professores, entender e incentivar a leitura — bem como a imaginação e a reflexão que ela ajuda a despertar — como exercício sobre a diversidade e, principalmente, sobre a alteridade (como quem se depara com a pobreza e a amarga doçura de Zezé e seu pezinho de laranja lima pela primeira vez) é fundamental.

    *Assessora de comunicação da Contee