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Seg, Jul

política externa

  • A segunda edição do programa “No Jardim da Política” em 2019, na Rádio Brasil de Fato, na última quinta-feira (10), trouxe à tona um dos temas mais polêmicos deste início de ano: a política externa do governo Jair Bolsonaro (PSL). 

    Conduzida pelos jornalistas Nina Fideles e Leonardo Fernandes, a edição também contou com a participação da correspondente do Brasil de Fato na Venezuela, Fania Rodrigues, e com uma entrevista exclusiva da poeta, atriz e diretora de teatro Luiza Romão.

    Para refletir sobre a política externa, o programa recebeu o professor Igor Fuser, do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC). Doutor em Ciência Política, ele ressaltou o alinhamento do Brasil aos interesses dos Estados Unidos e a fragilização dos processos de integração regional na América Latina.

    A ascensão da extrema direita no Brasil e no mundo também é um dos temas do programa. O pesquisador reflete ainda sobre o que se pode esperar para o cenário latino-americano no futuro próximo. Confira a seguir os principais trechos da entrevista:

    Brasil de Fato: Em que se baseia a política externa do governo Bolsonaro?

    Igor Fuser: É muito importante a gente saber identificar o que é conversa inconsequente, bobagens mesmo, quantidade de asneiras que são faladas por esse novo chanceler [Ernesto Araújo, ministro das Relações Exteriores], o que é uma coisa realmente estarrecedora, constrangedora. Nos meios diplomáticos, a notícia que a gente tem é de que as pessoas estão envergonhadas, chocadas com o nível baixo do discurso do comando da diplomacia brasileira. Mas é necessário diferenciar essa enxurrada de asneiras daquilo que é substantivo na política externa.

    O traço principal dela é o alinhamento total, absoluto, incondicional do Brasil aos Estados Unidos. O Brasil entra numa posição subalterna que nunca existiu na história da sua diplomacia. Nem no regime militar, nem nas épocas do Fernando Henrique Cardoso [1995-2002] e do Collor [Fernando Collor, presidente entre 1990-1992] o Brasil foi tão submisso.

    A trajetória da política externa brasileira é marcada pela busca de algum tipo de autonomia. Uma autonomia mais ampla, mais completa, mais assertiva, como foi na época do Celso Amorim, no governo do Lula, ou uma autonomia mais acanhada, mais negociada, como foi na época do FHC. Agora, o Brasil se coloca aos pés dos EUA, como um soldado a serviço do Tio Sam, alinhado com o que tem de pior nos EUA, que é a diplomacia do Trump [Donald Trump, presidente estadunidense]. 

    Existem alguns limites. Por exemplo, o posicionamento do Bolsonaro em relação ao Mercosul é bastante alinhado com os interesses dos EUA. Por outro lado, temos um fluxo comercial muito grande com o Mercosul, e inviabilizaria economicamente o país se deixássemos de lado essa iniciativa, assim como outros pactos internacionais dos quais o país faz parte. Como você enxerga essas limitações dos pré-anúncios que têm sido feitos pelo governo de Jair Bolsonaro?

    Existem fatores internos que, como você aponta, colocam limites à implementação dessa política subalterna em relação aos EUA. Existem interesses comerciais. Por exemplo, a prioridade do governo dos EUA na atualidade é o enfrentamento com a China. O mundo hoje é marcado pela disputa geopolítica, e o esforço dos EUA é para diminuir a influência, a presença econômica da China na América Latina (AL).

    A pressão externa que o governo brasileiro sofre – isso já era bastante visível no governo Temer – era pra tentar afastar o Brasil da China. No entanto, ela é o principal parceiro comercial do Brasil, o principal comprador das nossas commodities de exportação. Especialmente a soja, secundariamente, o ferro e outros produtos. Então, qualquer limitação no comércio do Brasil com a China provocaria uma situação de verdadeiro colapso em setores estratégicos da economia brasileira. São limites muito complexos.

    Você falou do Mercosul. O Brasil não vai acabar com ele, porque a burguesia brasileira ganha com o Mercosul e as empresas transnacionais instaladas no Brasil e na Argentina se beneficiam também desse acordo. Então, o que vai se fazer é limitar o alcance do Mercosul, aprofundar essa tendência de abandono de qualquer projeto de integração regional. E o Brasil não está sozinho nisso. Há um governo na Argentina que vai pelo mesmo caminho.

    A mesma coisa [é] a questão do Oriente Médio. Sobre a conversa de transferir a embaixada do Brasil pra Jerusalém. Apenas dois países do mundo tomaram essa decisão, que são EUA e Guatemala. É uma posição que mostra uma ruptura com uma política histórica de neutralidade do Brasil em relação ao conflito israelense-palestino.

    Isso significa, se for levado à prática, o risco de perda de exportações [brasileiras] para países de maioria muçulmana. Trata-se de uma tentativa de agradar setores evangélicos que têm uma visão completamente maluca. Eles confundem os hebreus do Velho Testamento e certas passagens da Bíblia com a situação atual do conflito entre Israel e Palestina. Isso não é uma invenção de evangélicos brasileiros. É importado dos EUA, onde fundamentalistas evangélicos têm a mesma visão e pressionam nessa direção.

    Esse alinhamento que o senhor menciona, que também é ideológico, é mais uma das contradições do governo, inclusive do seu próprio slogan, que coloca “Brasil acima de tudo e Deus acima de todos”. [Essa postura] tem impacto na soberania nacional – pré-sal, Amazônia, o cuidado com o clima, que também tem muito a ver com a Amazônia. É correto dizer que esses são os grandes interesses dos EUA com relação à nossa soberania e às riquezas nacionais? 

    Esses que se apresentam como patriotas são os mais entreguistas, são verdadeiros traidores da pátria, e isso tem que ser dito claramente. O “Brasil acima de tudo” não está tão acima assim; é abaixo dos EUA. É uma hipocrisia total.

    Nessa questão das riquezas nacionais, nós estamos presenciando crimes que nunca houve na história do Brasil, com essa dimensão. A entrega do pré-sal, por exemplo. O pré-sal é o maior tesouro da indústria do petróleo mundial dos últimos 60 anos. São reservas gigantescas de petróleo de alta qualidade.

    A Petrobrás desenvolveu tecnologias que permitem exploração do pré-sal a custo baixo, com alta eficiência, e esse petróleo está sendo entregue de bandeja pras empresas transnacionais. Um terço do pré-sal já foi entregue a preço vil pra empresas estrangeiras. e o resto está a caminho de ser entregue também.

    A tentativa dos governos Lula e Dilma de utilizar o pré-sal como fator de desenvolvimento pro Brasil foi abandonada completamente. Nós estamos vivendo o maior processo de desnacionalização da economia brasileira em toda a nossa história. Estamos regredindo à condição de colônia.

    Um dos principais argumentos pró-privatizações é o de que o Estado não teria competência para gerir os negócios de uma empresa do tamanho da Petrobrás. Conversamos com o economista Guilherme Melo sobre esse argumento, e ele disse que isso é tão contraditório que as empresas que mais compram ativos do Brasil no setor elétrico, por exemplo, são estatais de outros países – da Noruega, da China.

    A Petrobras é uma das melhores empresas de petróleo do mundo, uma das mais eficientes e mais capazes de inovação tecnológica. E ela está sendo sucateada, reduzida ao mínimo da exploração de petróleo. Eles só não estão colocando na agenda a privatização completa dela porque isso seria um escândalo. Eles percebem que seria demais, iria dar muita bandeira sobre o que é realmente a essência do atual governo. Há também alguma resistência de setores militares que estão no governo.

    A mesma coisa no setor elétrico. O Brasil tem uma matriz hidrelétrica que é referência no mundo inteiro. E o que eles vão fazer? Vão acabar com a Eletrobras, privatizar, entregar as hidrelétricas para o capital estrangeiro. É uma ofensiva em todas as frentes contra o patrimônio público brasileiro, contra os serviços públicos essenciais, de saúde, de educação, de Previdência. E eles querem fazer isso muito rápido.

    Na geopolítica, nós estamos vendo governos de extrema direita se consolidando. O Brasil é um grande ator na América, e isso pesa na balança, mas também há resistência. Teremos várias eleições em 2019, tivemos a posse do Maduro, na Venezuela. O que podemos esperar desse cenário?

    Analisando friamente a situação mundial, a gente encontra muito pouco motivo de alegria. Temos um mundo que está indo no sentido que não é o do aprofundamento da democracia, da justiça social, do avanço dos direitos humanos, mas o contrário. Esse avanço da direita se nutre do próprio fracasso do capitalismo em atender às expectativas das massas, das populações, dos povos no mundo inteiro.

    As pessoas estão muito frustradas, revoltadas, e essa raiva, politicamente, tende a ser canalizada pra algum lugar. A direita tem sabido canalizar melhor do que a esquerda essa raiva. A direita chega e aponta o inimigo. Na Europa, o inimigo é o imigrante, o estrangeiro, que é bode expiatório. Eles estão conseguindo vender [a ideia], na Europa inteira, de que eles estariam muito bem se não fossem os africanos, os latino-americanos, os asiáticos, e assim por diante.  

    Na América Latina, eles estão encontrando como inimigo a esquerda, vendendo uma ideia de forma deturpada e, com isso, favorecendo projetos demagogos, como esse que foi vitorioso nas urnas do Brasil. Em outros lugares do mundo, essa raiva vai para o fundamentalismo religioso, como no Oriente Médio. E, na própria América Latina, se a gente vai analisar o que é o crescimento dos evangélicos, [isso] tem muito a ver com a negação do mundo. 

    É uma capitalização também desse descontentamento. Você não vê perspectivas no mundo como ele é, e aí abraça a perspectiva de uma vida futura depois da morte, que é oferecida pela religião. Na América Latina, nós tivemos um período de avanço muito importante das lutas sociais, o estabelecimento de governo progressistas, em grande parte da América do Sul e, de parte da América Central, no Caribe também. Esses governos foram vitoriosos em vários aspectos. Implementaram políticas públicas que favorecem avanços na educação, na saúde, aumento do nível de salário, da capacidade de consumo, melhoria da alimentação, diminuição da pobreza. Enfim, uma série de avanços, mas eles não foram acompanhados por uma mudança – que seria necessária – no plano dos valores, das ideias.

    As ideias continuaram sendo as ideias burguesas, do capitalismo, e é muito difícil essa mudança ideológica. Não é algo que se faz simplesmente num estalar de dedos, com uma decisão estratégica. São fatores muito complexos que estão envolvidos.

    Então, a falta dessa mudança naquilo que [Antonio] Gramsci chama de “senso comum”, das mentalidades no plano da ideologia, favoreceu o contra-ataque das forças conservadoras, explorando as fraquezas desses governos. Agora, vem a contraofensiva – que é muito forte – da direita, e [ela] está obtendo resultado. [Eles] viraram o governo na Argentina, no Brasil, e estão tentando, de todas as formas, virar o governo na Venezuela. Este ano, teremos novas batalhas. Vão tentar virar o governo na Bolívia, e lá não vai ser simples.

    A Bolívia é o país da América do Sul com os maiores índices de crescimento nos últimos 15 anos. No governo do Evo Morales, o país conseguiu avanços sociais muito importantes. O salário mínimo, por exemplo, quadruplicou em dez anos de governo do Morales. O governo da Bolívia tem elementos muito favoráveis a oferecer pra enfrentar, nas urnas, democraticamente, a tentativa da direita – e, por trás da burguesia local, o imperialismo – e tentar reverter a situação lá. Isso vai ser no final do ano, em outubro.

    Ainda teremos eleições no Uruguai, também neste ano, e um referendo constitucional em Cuba. Serão formas de resistência progressista ao avanço da direita na América Latina?

    O governo cubano está dando passos importantes para reforçar sua legitimidade, aumentar a democracia, a possibilidade de participação popular, em um contexto muito difícil. Essa ofensiva da direita na América Latina reflete em Cuba.

    Havia expectativa de normalização da inserção internacional de Cuba, a partir do acordo do país com os EUA, no governo Barack Obama – algo que foi revertido com Trump, que aposta em uma política mais dura e agressiva. Cuba está se defendendo e reforçando a legitimidade da sua revolução, preservando seus avanços e espaços socialistas que foram criados.

    Cuba está resistindo há 60 anos e vai continuar resistindo.

    O assunto Venezuela é sempre complicado para o público, porque há um bombardeio diário da mídia tradicional sobre esse assunto. Por que a oposição questiona esse novo mandato do Nicolás Maduro?

    Primeiro, gostaria de parabenizar o trabalho do Brasil de Fato por cobrir a Venezuela estando no olho do furacão, oferecendo informação confiável e alternativa à cobertura deformada dos grandes meios de comunicação. Há uma campanha de desestabilização e intervenção externa na Venezuela, tanto da mídia internacional, quanto dos veículos brasileiros. 

    Trata-se de um governo legítimo. Maduro foi eleito em eleições competitivas, com a participação de mais de 40 partidos, com vários candidatos, inclusive com um candidato da oposição conservadora que teve uma votação expressiva. O Maduro ganhou essa eleição com 2/3 dos votos, é incontestável.

    Li na Folha de São Paulo que "Maduro foi eleito com suspeita de fraude". Onde está denúncia concreta de fraude? Que denúncia foi essa? As eleições foram verificadas por mecanismos transparentes. É um presidente legítimo. Aliás, mais legítimo que o Bolsonaro, que só venceu porque inviabilizaram a candidatura do Lula. Há uma sombra sobre a legitimidade da eleição do Bolsonaro, assim como a disseminação de mensagens falsas às vésperas da eleição, que também é uma sombra no governo brasileiro. Mas, para a mídia brasileira, o que não é legítimo é o governo da Venezuela.

    A Venezuela tem um governo democrático, com vigência da liberdade de expressão. A oposição diz o que quer sem ser reprimida. As emissoras de maior audiência na TV estão nas mãos da oposição, os partidos funcionam. No ano passado, líderes da oposição foram aos EUA para pedir a invasão da Venezuela pelos EUA. Elas fizeram isso, voltaram para a Venezuela, tranquilas. Em qualquer lugar do mundo, um político que peça uma invasão externa ao seu país é preso por traição à pátria. Como, não há liberdade?

    A Venezuela tem problemas graves, mas o ponto inicial é: quem vai resolver esses problemas são os venezuelanos, com os mecanismos democráticos garantidos pela sua Constituição. A Venezuela sofre sanções tão duras quanto as que foram aplicadas em Cuba. Essas sanções são responsáveis, em grande medida, pelas dificuldades que o país está atravessando atualmente. 

    É importante falar da disputa global também no contexto venezuelano. Rússia e China fazem uma espécie de resistência, com palavras do [Vladimir] Putin proibindo qualquer ação militar dos EUA. A Venezuela está inserida nessa disputa global?

    O governo da Venezuela está tentando enfrentar a crise, resistir a essa pressão fortíssima que vem de fora. Eles vão buscar aliados. Aquele que está enfrentando um inimigo muito mais forte e poderoso sabe que não vai se aguentar sozinho. A Venezuela encontrou aliados na China e na Rússia.

    A China tem tido um papel importante no apoio ao governo venezuelano, com linhas de financiamento para tentar recuperar setores da economia venezuelana, em especial o petróleo. São empréstimos com pagamento a longo prazo. A Rússia está equipando o exército da Venezuela, que está sendo ameaçada de invasão pelos EUA, e nós sabemos que eles intervém mesmo.

    Eles já praticaram dezenas dessas ações ao longo do século 20. Na América Central, todos os países passaram por isso. Houve financiamento de golpes no Chile, na Argentina e no Brasil, algo amplamente conhecido e comprovado por documentos. Para resistir aos EUA, a Venezuela está buscando esse apoio militar na Rússia, para que possam se defender. A Venezuela está se aproveitando da disputa geopolítica para encontrar um contrapeso nessa disputa global. 

    Ao longo das eleições no Brasil, ouvimos duas coisas bem curiosas sobre a Venezuela: que eles não vivem uma democracia, e também sobre a "URSAL", a União das Repúblicas Socialistas da América Latina. Como você enxerga o aparecimento da URSAL no meio da disputa?

    Evidentemente, não existe nada nesse sentido. Para começar, o único país socialista na América Latina é Cuba. Para nossa tristeza, o que temos visto é uma destruição da tentativa de integração regional. A gente pode aproveitar essa piada, algo delirante que foi aproveitado na campanha eleitoral, e refletir um pouco se não seria no fundo uma boa ideia.

    Os povos latino-americanos são parecidos, com línguas próximas, de fácil entendimento. São realidades sociais parecidas, todos filhos da colonização, com genocídio os povos indígenas, escravização dos povos africanos, ditaduras em períodos da nossa história, a desigualdade social absurda. Precisamos nos aproximar dos países vizinhos, criar pontes de entendimento com outros povos. Isso foi tentado e está na Constituição brasileira. Quando esses governantes atacam o Mercosul ou iniciativas de busca de aproximação com países da região, eles estão indo contra a Constituição que eles juraram.

    Precisamos refletir sobre isso. Por que não o socialismo? O capitalismo só causa dor, miséria e revolta no mundo inteiro. Precisamos de alternativas. No século 20, houve um esforço de construção de uma sociedade alternativa socialista que não deu certo. Não funcionou porque ocorreu em condições desfavoráveis, erros foram cometidos. As pressões para que essas experiências não dessem certo foi muito grande. Mas não é porque se tentou uma vez e não se conseguiu, que não se deva continuar sonhando – e mais que sonhando, almejando e buscando uma alternativa a esse sistema.

    O capitalismo, na maneira como está concebido, tende a piorar cada vez mais a situação da humanidade, dos trabalhadores e dos povos. Os avanços tecnológicos, que deveriam tornar nossa vida cada vez melhor, mais próspera, está sendo usado ao contrário, colocando robôs no processo do trabalho, deixando trabalhadores sem fonte de renda. A robotização deve desempregar centenas de milhões de pessoas no mundo inteiro. Não tem como achar soluções dentro desse modelo e lógica. O capitalismo está falido como alternativa humana.

    Fonte: Brasil de Fato

  • Faz um ano neste domingo que o ex-presidete Lula está encarcerado em Curitiba. É um preso político, na opinião de inúmeros juristas brasileiros, bem como políticos, sindicalistas e personalidades de todo o mundo. Ele foi condenado sem provas e com base em uma delação premiada arrancada a fórceps pelo juiz Sergio Moro, hoje ministro de Jair Bolsonaro. Convém lembrar que o empresário delator, Leo Pinheiro, tinha feito um depoimento oposto antes, inocentando Lula. Mudou de opinião por pressão de Moro e como condição para recuperar a liberdade.

    Na verdade a condenação e prisão do maior líder popular da história do Brasil, respaldada por forças e interesses poderosos, foi mais um capítulo do golpe de Estado de 2016, patrocinado pelas classes dominantes e na qual a Operação Lava Jato, com o providencial apoio da mídia hegemônica, dempenhou papel central. Moro foi recompensado com o Ministério da Justiça.

    A injustiça cometida contra o ex-presidente contraria o principio constitucional de presunção da inocência, que só permite a subtração da liberdade do cidadão depois do chamado trânsito em julgado, ou seja, depois de esgotados todos os recursos, o que não é o caso. A prisão em segunda instância é uma afronta à Constituição, tema de recorrentes polêmicas e assunto pendente no Supremo, cuja maioria é hoje formada por defensores da presunção de inocência.

    O tema estava na pauta da Corte para nova análise por essas dias. A julgar pela expectativa dominante, deveria prevalecer a proibição da prisão sem o trânsito em julgado, decisão que implica na libertação de Lula. Na quinta-feira, o presidente do STF, ministro Dias Toffoli, que havia incluído a questão na pauta e anunciou que mudou de ideia e resolveu adiar o processo sobre prisão após julgamento em segundo instância. Seu gesto - oposto ao pensamento do relator da matéria, ministro Marco Aurélio - foi atribuído pelo jornalista Ricardo Noblat à pressão dos militares, que voltaram a dar as cartas em Brasília pelas mãos de Bolsonaro, 34 anos depois do fim do malfadado regime instalado em 1º de abril de 1964.

    Agenda golpista

    A interdição da candidatura do maior líder popular da história do Brasil foi essencial para a eleição de Jair Bolsonaro, que se tornou o queridinho do mercado (sobretudo dos capitalistas estrangeiros) ao lado do seu “posto Ipiranga”, o Paulinho Tchutchuca. Com Lula na parada o capitão da extrema direita não seria eleito, conforme indicavam todas as pesquisas de opinião à época.

    A vitória do candidato do PSL foi o coroamento do golpe de 2016 e a garantia da continuidade e aprofundamento da agenda regressiva inaugurada pelo usurpador Temer, fundada numa ofensiva sem paralelo do capital contra o trabalho, no desrespeito ao Estado Democrático de Direito e na abjeta submissão aos EUA.

    Este conteúdo reacionário da orientação política imposta desde 2016, traduzido na reforma trabalhista, no novo regime fiscal, na maior abertura do pré-sal, é agora acentuado por Jair Bolsonaro. Ele consumou a virada entreguista na política externa transformando o Brasil em colônia de um império decadente, quer acabar com os sindicatos e impor uma reforma previdenciária desumana e perversa com os mais pobres.

    A luta pela libertação de Lula e por um julgamento justo vai ganhar corpo com o crescimento da resistência dos movimentos sociais, das forças democráticas, patrióticas e progressistas do nosso país ao retrocesso político e à degradação do Estado nacional. A bandeira do Lula Livre será agitada nas ruas e vai ajudar a colorir as manifestações do nosso povo em defesa da democracia, da soberania e dos direitos sociais.

    Umberto Martins

  • A rainha da Inglaterra parece poderosa, mas não é. Ocupa um cargo mais decorativo do que real. Assim se sentiu o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, em Washington, conforme revela matéria da jornalista Patrícia Campos Mello, do jornal “Folha de São Paulo”, parcialmente reproduzida abaixo:

    “O chanceler Ernesto Araújo teve um chilique na frente de outros ministros por causa da participação do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) no encontro privado entre os presidentes Jair Bolsonaro (Brasil) e Donald Trump (EUA) nesta terça-feira (19).

    “Araújo não participou da reunião privada entre os dois líderes realizada no Salão Oval da Casa Branca, em Washington.

    “Segundo pessoas que estavam presentes no momento descreveram à Folha, Araújo ficou especialmente irritado após ler o blog da jornalista Míriam Leitão, do jornal O Globo.

    “No texto, ela afirma que o Itamaraty saiu rebaixado com ida de Eduardo para o encontro com Trump e diz que, se Araújo tivesse “alguma fibra”, ele pediria para deixar o cargo.

    “A percepção dos presentes foi de que o ministro às vezes tem comportamento instável. O ministro da Economia, Paulo Guedes, tentou acalmá-lo.”

    Ficou claro que o ministro virou uma espécie de rainha da Inglaterra do Itamaraty. O chanceler de fato é Eduardo Bolsonaro, que andou falando asneiras sobre imigrantes brasileiros e levou um puxão de orelha até do pastor Malafaia, eleitor de Bolsonaro.

    Quando à fibra e caráter do ministro Ernesto Araújo, o leitor Wagner Castro fez um comentário esclarecedor:

    “Ernesto Araújo não é um Chanceler. É um blogueiro e bajulador de extrema direita alçado ao topo da carreira pela simples identidade ideológica com o atual e famigerado governo e seu guru Olavo de Carvalho. E se Ernesto Araújo tivesse alguma ´fibra´, vulgo ´vergonha na cara´, ele jamais teria aceito um cargo para o qual não tem qualificação, inclusive a ausência dessa mesma ´fibra´.

    Que vergonha, meu Brasil!

  • “Não interessa ao capital financeiro internacional que o Brasil ou, de forma mais ampla, os países da América Latina e Caribe, produzam as reformas sociais necessárias a uma sociedade mais justa e tracem rumos próprios na política internacional”, alertou o embaixador Celso Amorim em entrevista exclusiva concedida ao Portal CTB.

    Celso Amorim debate globalização, direitos e democracia em seminário internacional da CTB

    O diplomata e ex-ministro participa, na próxima quinta-feira (24), em Salvador (Bahia), do Seminário Internacional “A crise econômica global e o mundo do trabalho” que antecede o 4º Congresso Nacional da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e reúne dirigentes sindicais de 29 países. 

    Amorim foi chanceler nos dois governos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ministro da Defesa no governo Dilma Rousseff. Na conversa, ele destacou, entre outros temas, a mudança na política externa brasileira a partir de 2003.

    Leia abaixo a íntegra da entrevista:

    Portal CTB: Durante os oito anos de governo Lula, o Brasil protagonizou a chamada política externa “altiva e ativa”. Como foi possível ter uma diplomacia independente do alinhamento automático aos interesses dos Estados Unidos?

    Celso Amorim: O Brasil é um grande país, quinto em território e população e uma das dez maiores economias do mundo (chegou a ser a sétima). Além disso, seu povo reflete uma pluralidade de origens que o torna especial aos olhos de outros. Talvez mais importante: com quase 17 mil quilômetros de fronteira e dez vizinhos, o Brasil não se envolveu em conflito armado na região por um século e meio. Tudo isso credencia o nosso país a ter uma ação forte e independente no cenário internacional. Esse foi o pensamento de Rio Branco, Rui Barbosa e San Tiago Dantas, cada um deles refletindo as realidades de suas épocas. A eleição do presidente Lula e a perspectiva de que o país voltasse a ter um período de crescimento, acompanhado, desta vez, de firme combate à desigualdade (sua maior chaga), elevou a autoestima do povo brasileiro, o que não poderia deixar de se refletir na política externa. Essa atitude desassombrada, aliada à capacidade de articular alianças com países e blocos, permitiu ao Brasil atuar com desenvoltura ímpar no cenário internacional, angariando respeito, mesmo daqueles que não pensavam como nós.

    Como estas políticas de integração regional, fortalecimento da relação Sul-Sul e a aproximação com países Árabes e da África favoreceram Brasil no cenário mundial?

    A integração da América do Sul foi uma prioridade do governo do presidente Lula, que se empenhou no fortalecimento do Mercosul e na constituição de uma Comunidade Sul-Americana de Nações (CASA), que resultou na Unasul. Também se empenhou em um mais amplo entendimento entre todos os países da América Latina e Caribe, convocando, pela primeira vez na história, uma cúpula dessas nações (CALC), realizada em Sauipe, na Bahia. Ao mesmo tempo, foram criados ou fortalecidos laços com países africanos e árabes, sempre que possível com o envolvimento dos nossos vizinhos, fato de que são exemplos a ASPA (Cúpula América do Sul-Países Árabes) e a ASA (Cúpula América do Sul – África). De igual importância foi a criação do Fórum IBAS, com a participação das três maiores democracias multiétnicas e multiculturais do mundo em desenvolvimento: Índia, Brasil e África do Sul. O IBAS está na raiz dos BRICS, até então uma mera sigla criada por um economista de um banco de investimentos. Todas essas articulações, entre outras (como aproximação com o Caribe), facilitaram a busca de objetivos comuns em fóruns como a Organização Mundial de Comércio (OMC) e as Nações Unidas, o que ensejou decisões favoráveis desses órgãos em temas de nosso interesse, bem como facilitou a eleição de brasileiros para cargos importantes em entidades como a FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) e a OMC.

    Depois de Honduras e Paraguai, o Brasil foi outra vítima do chamado “golpe suave”, agora a Venezuela está sendo fortemente atacada numa tentativa de desestabilização do governo de Nicolás Maduro. O que há por trás destes golpes e quais interesses em questão?

    As sociedades latino-americanas e caribenhas são marcadas por fortes desigualdades, provenientes em grande parte do sistema escravista que nelas prevaleceu por longo tempo. Além disso, suas elites econômicas e políticas guardam forte relação com os países centrais. Qualquer tentativa de romper com essa estrutura social desigual e o status de dependência nas relações internacionais gera reações. As situações mencionadas na pergunta guardam semelhanças, mas não são idênticas. No caso de Honduras, o presidente Manuel Zelaya, foi apeado do poder, segundo relatos, com um fuzil encostado a sua cabeça. O presidente Fernando Lugo, por sua vez, foi objeto de um golpe parlamentar em um momento em que se encontrava muito debilitado. O caso do Brasil é mais complexo: a derrubada da presidenta Dilma exigiu manobras sutis e prolongadas, que lhe pudessem dar alguma aparência de legalidade. Os indícios de interferência externa são muito claros nas três situações. No caso do Brasil (um processo ainda não terminado), o objetivo é barrar um projeto de país que, além de afetar interesses internos, foi percebido como potencial ameaça à hegemonia norte-americana na região e para além dela, dada a projeção que a diplomacia brasileira adquiriu na África, no Oriente Médio etc.

    Após o golpe no Brasil, várias medidas como a terceirização, a reforma trabalhista, a redução de programas sociais e a privatização de setores estratégicos estão sendo rapidamente aprovadas, na sua opinião há uma ofensiva do capital internacional?

    Há, sem dúvida, uma grande ofensiva do capital internacional, sobretudo o financeiro, que dispõe de poderosos aliados em nosso país, a começar pela grande mídia. Não interessa ao capital financeiro internacional que o Brasil ou, de forma mais ampla, os países da América Latina e Caribe, produzam as reformas sociais necessárias a uma sociedade mais justa e tracem rumos próprios na política internacional.

    Como fica a diplomacia brasileira no governo Michel Temer?

    Não fica.

    Érika Ceconi – Portal CTB
    Foto: Agência Brasil

  • A política externa direitista e tresloucada da dupla Bolsonaro/Araújo, completamente subordinada aos desígnios imperialistas de Washintgon, já está cansando sérios prejuízos à economia nacional. A China, que já é a maior economia do mundo e, desde 2009, a maior parceira comercial e financeira do Brasil, deixou de liberar as primeiras parcelas do bilionário Fundo de Cooperação Brasil-China para Expansão da Capacidade Produtiva em resposta às provocações e à retórica anticomunista do capetão. Lançado em 2015, antes portanto do golpe de Estado que afastou a presidenta Dilma Rousseff, o fundo tornou-se referência global e tem o potencial de alavancar investimentos estimados em UR$ 20 bilhões.
    A política desastrada de Bolsonaro, orientada por uma ideologia tosca e feita sob encomenda para agradar Donald Trump, conspira contra o desenvolvimento nacional, que não será retomado sem um aumento substancial da taxa de investimentos (ou Formação Bruta de Capital Fixo, na linguagem técnica do IGBE). Hoje a China é a principal fonte de invesmentos do Brasil no exterior e o maior mercado para nossas exportações, ao passo que os EUA se transformarm num importador líquido de capitais e daqui retiram muito mais (somando remessas de juros, lucros e superávit comercial) do que têm a nos oferecer. Só temos a perder brigando com o gigante asiático e, nesta altura da história, a relação carnal com o decadente império americana é como um abraço de afogados.

    Leia abaixo a reportagem do jornal Valor sobre o tema intitulada Retórica anti-China trava fundo de investimentos bilionários:

    A retórica do presidente Jair Bolsonaro sobre a China e seus investimentos no Brasil travou o primeiro desembolso do fundo multibilionário idealizado pelos dois países para impulsionar a cooperação econômica bilateral. Lançado em 2015, durante encontro em Brasília do primeiro-ministro Li Keqiang com a então presidente Dilma Rousseff, o Fundo de Cooperação Brasil-China para Expansão da Capacidade Produtiva.

    Lançado em 2015, durante encontro em Brasília do primeiro-ministro Li Keqiang com a então presidente Dilma Rousseff, o fundo demorou quase três anos para ser estruturado e chegar à lista final de candidatos aos primeiros aportes. Após uma extensa seleção de projetos, havia conversas bastantes avançadas para o anúncio do financiamento de estreia do fundo – provavelmente em outubro do ano passado.
    Provocaçõs
    A lista de ativos analisados pelos dois governos tem sido mantida em sigilo por cláusulas de confidencialidade. O Valor apurou, porém, que a linha de transmissão responsável pelo escoamento de energia da usina hidrelétrica de Belo Monte (PA) até o Rio de Janeiro estava praticamente definida como desembolso inaugural.


    Orçado em quase R$ 10 bilhões, o linhão está em obras e tem previsão de entrega para dezembro. Ele vem sendo financiado com empréstimos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A intenção era usar recursos do fundo como "equity" para a compra de uma fatia acionária de até 40% do empreendimento controlado pela State Grid

    Antes mesmo de começar formalmente a campanha eleitoral, o então pré-candidato do PSL irritou o Partido Comunista da China ao viajar em fevereiro para Taiwan, como parte de um giro pela Ásia. A ilha tem sua soberania reivindicada pelos chineses, que a consideram uma província sem direito de ter relações independentes com outros Estados.

    Em pleno segundo turno, Bolsonaro queixou-se de que a China, responsável por US$ 69,2 bilhões em investimentos no Brasil acumulados de 2003 a 2018, "não está comprando no Brasil, está comprando o Brasil". Já na liderança das pesquisas, ele ainda falou sobre a China para ilustrar suas preocupações com a privatização da Eletrobras: "Quando você vai privatizar, vai privatizar com qualquer capital do mundo? Vai deixar o Brasil na mão dos chinês?”

    O último mal-estar veio como desdobramento de uma visita à China de deputados eleitos pelo PSL, duas semanas antes de tomarem posse, para ver o sistema de reconhecimento facial desenvolvido no país. O ideólogo Olavo de Carvalho, apontado como guru de Bolsonaro, chamou os congressistas de "idiotas" e "bando de caipiras". Na ocasião, Olavo cobrou o governo: “Cadê o Executivo? O Executivo vai deixar esses caras irem lá e entregar o Brasil ao poder chinês?”

    Alerta

    A trava imposta na liberação do primeiro desembolso surge como alerta dos potenciais estragos causados por essa retórica. O fundo com o Brasil tornou-se referência global e pode chegar a US$ 20 bilhões. Isso porque o governo chinês tem 16 arranjos bilaterais espalhados pelo mundo, mas o mecanismo com o Brasil é o único com gestão paritária: representantes dos dois lados têm o mesmo peso, o que é determinante para não haver exigências sensíveis – como o fornecimento obrigatório de equipamentos ou mão de obra pelo gigante asiático.

    Dos US$ 20 bilhões, US$ 15 bilhões seriam do Fundo de Cooperação Chinês para Investimento na América Latina (Claifund). Os US$ 5 bilhões restantes viriam do lado brasileiro. BNDES e Caixa são os operadores preferenciais, mas a participação é aberta para outras instituições. Não há aportes orçamentários.

    Cinco projetos - quatro de infraestrutura e um da área industrial - haviam sido pré-selecionados. Eles totalizam US$ 2,4 bilhões. O fundo foi colocado à disposição dos grupos vitoriosos nos leilões do Programa de Parcerias de Investimento (PPI) como alternativa de financiamento ou "equity". A candidatura a receber recursos se dá por meio de cartas-consulta enviadas à secretaria executiva do fundo, que ficava com o antigo Ministério do Planejamento e ainda está morta.

    O comitê diretivo do fundo, sua instância máxima de deliberação, ainda não se reuniu neste governo. Ele é formado por três representantes com nível de vice-ministro de cada país. Do lado brasileiro, são os secretários executivos do Ministério do Planejamento (hoje Economia) e da Casa Civil, além do secretário-geral das Relações Exteriores.

    Fonte: Daniel Rittner e Ana Krüger no jornal Valor

  • Pressionado pelo chamado agronegócio e enquadrado pelos militares, Jair Bolsonaro não cumpriu a promessa de transferir a embaixada brasileira em Israel para a cidade de Jerusalém, feita durante a campanha presidencial. Parece ter sido mais um produto da sua próspera fábrica de fake news. Ainda assim sua visita ao país sionista, hoje dirigido por um desacreditado líder de extrema direita (Benjamin Netanyahu), tende a provocar sensíveis prejuízos à economia nacional.

    O líder da extrema direita tropical, que tem por guru um astrólogo alucinado que se acha filósofo, resolveu instalar um escritório comercial em Jerusalém, o que foi descrito pelo general Mourão, seu vice, como “um passo intermediário”. Na realidade, é bem menos do que prometeu a Netanyahu, mas o gesto despertou a indignação dos palestinos, cujo território foi ocupado ilegalmente pelos judeus, e contribuiu para azedar um pouco mais as relações entre o Brasil e a comunidade árabe.

    Em nota divulgada domingo (31), a Autoridade Palestina condenou “nos termos mais fortes” a decisão, que considera  "uma violação flagrante da legitimidade e das resoluções internacionais, uma agressão direta ao nosso povo e a seus direitos e uma resposta afirmativa para a pressão israelense-americana que mira reforçar a ocupação e a construção de assentamentos na área ocupada em Jerusalém".

    Israel é um Estado notoriamente opressor que vive à margem do Direito Internacional, em conflito com o Conselho de Segurança da ONU, mas cujas ações criminosas são respaldadas pelo poder militar dos Estados Unidos. O governo atual está completamente isolado em sua pretensão de transferir a capital de Tel Aviv para Jerusalém, que conta apenas com o apoio de Donald Trump e de autoridades australianas.

    A ONU considera Jerusalém Oriental como território palestino ocupado ilegalmente, tendo declarado em 1980 que se trata de uma violação do Direito Internacional. O status final da cidade deve ser negociado entre as partes, de acordo com a organização, que por meio da resolução 478 recomendou a todos os países com representação em Jerusalém que se retirassem de lá.

    A política de Bolsonaro para Israel, apoiada por alguns grupos evangélicos, está em sintonia com a estratégia de Washington para o Oriente Médio e evidentemente visa agradar o bilionário Donald Trump, ídolo e patrão do capitão. Em contrapartida, contraria as tradições do Itamaraty, é nociva aos interesses nacionais e prejudicial particularmente para nosso comércio exterior, conforme alertou o economista Márcio Pochmann.    

    O intercâmbio do Brasil com os árabes é muito mais relevante do que com Israel. Somente em janeiro deste ano as exportações brasileiras para os países árabes somaram US$ 1,2 bilhão, o que significa 6,4% do valor total das nossas vendas ao exterior. Já as importações custaram US$ 597 milhões, o que resulta num superávit comercial de US$ 621 milhões em apenas um mês.

    As exportações para Israel são uma fração disto. Alcançaram apenas US$ 57,33 milhões no mesmo mês, ou seja, cerca de 22 vezes menos. O valor das importações foi de US$ 184,55 milhões, o que significa um saldo negativo de US$ 127,22 milhões. São números eloquentes.

    Se a política externa brasileira fosse guiada pelos interesses nacionais, combinados com princípios democráticos e civilizatórios consagrados no Direito Internacional, como de resto ocorreu na época de Lula e Dilma, o caminho seria outro. Ao contrário do que costuma alardear, o presidente da extrema direita se orienta pela mais tosca das ideologias, um ódio cego ao comunismo e absoluta submissão ao imperialismo liderado pelos EUA. O Brasil não tem nada a ganhar, mas terá muito a perder se continuar neste rumo.

    Umberto Martins

     

  • “Não interessa ao capital financeiro internacional que o Brasil ou, de forma mais ampla, os países da América Latina e Caribe, produzam as reformas sociais necessárias a uma sociedade mais justa e tracem rumos próprios na política internacional”, alertou o embaixador Celso Amorim em entrevista exclusiva concedida ao Portal CTB.

    Celso Amorim debate globalização, direitos e democracia em seminário internacional da CTB

    O diplomata e ex-ministro participa, na próxima quinta-feira (24), em Salvador (Bahia), do Seminário Internacional “A crise econômica global e o mundo do trabalho” que antecede o 4º Congresso Nacional da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e reúne dirigentes sindicais de 29 países. 

    Amorim foi chanceler nos dois governos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ministro da Defesa no governo Dilma Rousseff. Na conversa, ele destacou, entre outros temas, a mudança na política externa brasileira a partir de 2003.

    Leia abaixo a íntegra da entrevista:

    Portal CTB: Durante os oito anos de governo Lula, o Brasil protagonizou a chamada política externa “altiva e ativa”. Como foi possível ter uma diplomacia independente do alinhamento automático aos interesses dos Estados Unidos?

    Celso Amorim: O Brasil é um grande país, quinto em território e população e uma das dez maiores economias do mundo (chegou a ser a sétima). Além disso, seu povo reflete uma pluralidade de origens que o torna especial aos olhos de outros. Talvez mais importante: com quase 17 mil quilômetros de fronteira e dez vizinhos, o Brasil não se envolveu em conflito armado na região por um século e meio. Tudo isso credencia o nosso país a ter uma ação forte e independente no cenário internacional. Esse foi o pensamento de Rio Branco, Rui Barbosa e San Tiago Dantas, cada um deles refletindo as realidades de suas épocas. A eleição do presidente Lula e a perspectiva de que o país voltasse a ter um período de crescimento, acompanhado, desta vez, de firme combate à desigualdade (sua maior chaga), elevou a autoestima do povo brasileiro, o que não poderia deixar de se refletir na política externa. Essa atitude desassombrada, aliada à capacidade de articular alianças com países e blocos, permitiu ao Brasil atuar com desenvoltura ímpar no cenário internacional, angariando respeito, mesmo daqueles que não pensavam como nós.

    Como estas políticas de integração regional, fortalecimento da relação Sul-Sul e a aproximação com países Árabes e da África favoreceram Brasil no cenário mundial?

    A integração da América do Sul foi uma prioridade do governo do presidente Lula, que se empenhou no fortalecimento do Mercosul e na constituição de uma Comunidade Sul-Americana de Nações (CASA), que resultou na Unasul. Também se empenhou em um mais amplo entendimento entre todos os países da América Latina e Caribe, convocando, pela primeira vez na história, uma cúpula dessas nações (CALC), realizada em Sauipe, na Bahia. Ao mesmo tempo, foram criados ou fortalecidos laços com países africanos e árabes, sempre que possível com o envolvimento dos nossos vizinhos, fato de que são exemplos a ASPA (Cúpula América do Sul-Países Árabes) e a ASA (Cúpula América do Sul – África). De igual importância foi a criação do Fórum IBAS, com a participação das três maiores democracias multiétnicas e multiculturais do mundo em desenvolvimento: Índia, Brasil e África do Sul. O IBAS está na raiz dos BRICS, até então uma mera sigla criada por um economista de um banco de investimentos. Todas essas articulações, entre outras (como aproximação com o Caribe), facilitaram a busca de objetivos comuns em fóruns como a Organização Mundial de Comércio (OMC) e as Nações Unidas, o que ensejou decisões favoráveis desses órgãos em temas de nosso interesse, bem como facilitou a eleição de brasileiros para cargos importantes em entidades como a FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) e a OMC.

    Depois de Honduras e Paraguai, o Brasil foi outra vítima do chamado “golpe suave”, agora a Venezuela está sendo fortemente atacada numa tentativa de desestabilização do governo de Nicolás Maduro. O que há por trás destes golpes e quais interesses em questão?

    As sociedades latino-americanas e caribenhas são marcadas por fortes desigualdades, provenientes em grande parte do sistema escravista que nelas prevaleceu por longo tempo. Além disso, suas elites econômicas e políticas guardam forte relação com os países centrais. Qualquer tentativa de romper com essa estrutura social desigual e o status de dependência nas relações internacionais gera reações. As situações mencionadas na pergunta guardam semelhanças, mas não são idênticas. No caso de Honduras, o presidente Manuel Zelaya, foi apeado do poder, segundo relatos, com um fuzil encostado a sua cabeça. O presidente Fernando Lugo, por sua vez, foi objeto de um golpe parlamentar em um momento em que se encontrava muito debilitado. O caso do Brasil é mais complexo: a derrubada da presidenta Dilma exigiu manobras sutis e prolongadas, que lhe pudessem dar alguma aparência de legalidade. Os indícios de interferência externa são muito claros nas três situações. No caso do Brasil (um processo ainda não terminado), o objetivo é barrar um projeto de país que, além de afetar interesses internos, foi percebido como potencial ameaça à hegemonia norte-americana na região e para além dela, dada a projeção que a diplomacia brasileira adquiriu na África, no Oriente Médio etc.

    Após o golpe no Brasil, várias medidas como a terceirização, a reforma trabalhista, a redução de programas sociais e a privatização de setores estratégicos estão sendo rapidamente aprovadas, na sua opinião há uma ofensiva do capital internacional?

    Há, sem dúvida, uma grande ofensiva do capital internacional, sobretudo o financeiro, que dispõe de poderosos aliados em nosso país, a começar pela grande mídia. Não interessa ao capital financeiro internacional que o Brasil ou, de forma mais ampla, os países da América Latina e Caribe, produzam as reformas sociais necessárias a uma sociedade mais justa e tracem rumos próprios na política internacional.

    Como fica a diplomacia brasileira no governo Michel Temer?

    Não fica.

    Érika Ceconi – Portal CTB
    Foto: Agência Brasil