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Seg, Jul

Roda Viva

  • Vivemos em um tempo em que ser mulher é motivo de inquisição em programa de televisão – como demonstrou, nesta semana, o Roda Viva, espaço em que a política deveria ser o centro do debate.

    Quero expressar toda a minha admiração e sororidade à deputada estadual do PCdoB, Manuela D’Ávila que, com sua coragem e capacidade política, se agigantou naquela entrevista em que a misoginia e o anticomunismo foram a tônica das perguntas.

    Tenho convicção de que o povo quer ouvir as propostas do projeto de desenvolvimento para o Brasil, quer propostas de como sair desta crise econômica, política e institucional e não ouvir perguntas absurdas e machistas sobre a beleza da candidata.

    Agora, imaginem ser mulher e ser lésbica neste contexto ultraliberal e conservador que vivemos neste golpe!

    Sempre foi proibido desejar outra mulher e, ainda hoje, a sociedade e os “moralistas de plantão” consideram o amor entre duas mulheres um “pecado”, um “desvio”, uma “anormalidade”, um desejo proibido.

    Nos dias de hoje, os fundamentalistas que estão representados no Congresso Nacional pelas bancadas do Boi, da Bala e da Bíblia ainda afirmam que o divórcio é uma praga, que o aborto é um crime e entendem que o grande papel da mulher é procriar e cuidar da família, e que as lésbicas, as bis, as travestis, as transexuais e os gueis são pessoas que necessitam de “ajuda” da medicina, dos exorcistas ou da polícia.

    Um pouco da nossa história!

    A história de mulheres que amam outras mulheres não representa nenhuma novidade em nossa sociedade, já que a origem do termo lésbica provém da de Lesbos, ilha grega da Ásia Menor, marcada pela presença de Safo (século VII a.C), poetisa de talento excepcional cuja inspiração era insuflada pela paixão e desejo por mulheres. Sua obra foi queimada e reduzida a fragmentos por sua orientação sexual e pela devoção às deusas gregas. As mulheres nascidas em Lesbos eram chamadas de lésbicas.

    No Brasil, no século XVI, Felipa de Souza foi denunciada ao tribunal do Santo Ofício, na Bahia, por “práticas diabólicas”. Entre essas práticas, fazer amor com mulheres. Sua punição foi severa: a humilhação e o açoite públicos seguidos pelo exílio e morte.

    Hoje, no século XXI, pode-se dizer que muita coisa mudou, em decorrência da luta, da organização e da resistência das mulheres LBT.

    As mulheres lésbicas, bissexuais e trans brasileiras não são açoitadas em praça pública e não podem ser legalmente punidas por suas escolhas afetivas e sexuais. No entanto, o preconceito e a consequente discriminação seguem impedindo o exercício de liberdades fundamentais, matando e violando os direitos humanos das mulheres lésbicas, bissexuais e transexuais.

    Enganam-se os (as) que ainda pensam que nós, lésbicas/feministas emancipacionistas, nos tornamos cidadãs fazendo as nossas lutas especificas, por conquistas de direitos civis, sociais e políticos para as mulheres LBT.

    Nossa luta pela conquista da cidadania passou e passa pela nossa participação nos movimentos democráticos pela Independência do País, contra o crime brutal da Escravatura, pela República, contra o Estado Novo, pela paz, contra a Ditadura Militar, pela Anistia, contra a Carestia, pelas Diretas Já, contra o Racismo, pela Constituinte, contra a corrupção, pelo “impeachment” de Collor, contra a Privatização do Estado, pelas reformas agrária, da mídia, política, da educação, contra o Estatuto da Família, pela autonomia dos movimentos sociais, contra o Estatuto do Nascituro, pelos Direitos da Classe Trabalhadora, pela Descriminalização e Legalização do Aborto; contra a lesbofobia, a bifobia, a homofobia, a transfobia; contra os fundamentalismos; contra a fome; pela laicidade do Estado, pela democracia, pela soberania nacional, pela Petrobras, pelo pré-sal, pela Escola Sem Mordaça, pela não redução da maioridade penal, pela manutenção do gênero na educação em todos os níveis e modalidades de ensino; contra o golpe que retirou a presidenta Dilma e fez com que o Brasil entrasse em uma profunda crise política, institucional, econômica e um projeto ultraliberal e conservador tomasse conta do País.

    Dimensões do golpe

    O golpe no Brasil tem muitas dimensões e acentua o acirramento da luta de classes, concentrando mais ainda a riqueza em prejuízo da classe trabalhadora.

    A crise do capitalismo nos últimos dez anos mostra que a saída dos governos neoliberais, do capital financeiro e especulativo, tem sido o arrocho e o aperto para cima dos(as) trabalhadores(as). A consequência é nítida: aumento da fome, da pobreza, de guerras e conflitos em diversas partes do mundo.

    Vivemos uma conjuntura de avanço do conservadorismo e de perda de direitos sociais e trabalhistas historicamente conquistados, seguido do aumento da violência e do controle sobre a vida e o corpo das mulheres, com o aumento do racismo, do feminicídio, da lesbofobia, da bifobia, da homofobia, da transfobia, além da repressão e criminalização aos movimentos sociais e populares, do movimento sindical, das centrais sindicais e da desqualificação e perseguição das esquerdas.

    Sabemos que a Reforma Trabalhista acaba com a CLT e, portanto, o negociado vale mais que o legislado. Imaginem que o exército de desempregados (as) aumentará cada vez mais e sem dúvida as mulheres, negros (as), LGBTs, deficientes serão cada vez mais excluídos do mundo do trabalho. O Brasil será um país de “biscateiros” (as).

    A dupla jornada de trabalho e a desigualdade salarial são dois dados chocantes da situação das mulheres trabalhadoras no Brasil que se completa com a triste constatação de que a precarização, a terceirização, o trabalho informal e o desemprego tem rosto de mulher e, em sua maioria, o rosto das mulheres negras.

    A agenda conservadora e ultraliberal que vem sendo imposta pelo conjunto de valores que ganham muita força com este governo ilegítimo, sem voto popular, que representa e fortalece o patriarcado, a misoginia, o feminicídio, a cultura do estupro e a violência contra as mulheres – negras, lésbicas, bissexuais, transexuais, prostitutas, ciganas, deficientes, enfim, todas as mulheres com suas diversidades e especificidades – precisa ser combatida.

    Neste momento de resistência e luta, o principal desafio dos movimentos sociais, populares e sindical é a unidade na luta e elevar a consciência política da classe trabalhadora e de todos os movimentos socias, dando destaque aos movimentos LGBT, na luta para derrotar o golpe, conquistar a democracia que nos foi roubada, resistindo e lutando pela soberania do voto popular e retomar a agenda da classe trabalhadora por um projeto nacional de desenvolvimento com valorização do trabalho, direitos sociais e enfretamento ao machismo, ao racismo e a LGBTfobia.

    Precisamos acreditar na nossa capacidade de construir, transformar, revolucionar esta sociedade, que continua oprimindo quem se atreve a “sair da caixinha”, “fugir da regra”, “sair do armário”. O Brasil precisa da nossa coragem!

    Silvana Conti é vice-presidenta da CTB-RS licenciada, pré-candidata do PCdoB-RS a deputada federal, é professora, municipária, lésbica, feminista, integrante licenciada do Conselho Nacional LGBT e da direção nacional da UBM.

    Os artigos publicados na seção “Opinião Classista” não refletem necessariamente a opinião da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e são de responsabilidade de cada autor.

  • Entre as comemorações dos 30 anos do programa Roda Viva, da TV Cultura, de São Paulo, estava a “entrevista” com o presidente golpista Michel Temer. Para entrevistá-lo no Palácio da Alvorada, em Brasília, foi escolhido um time da mais fina flor do jornalismo serviçal.

    O Roda Viva convidou para entrevistar Temer, Willian Corrêa, diretor de jornalismo da TV Cultura, João Caminoto, diretor de jornalismo do Grupo Estado, Sérgio Dávila, editor executivo da Folha de S.Paulo, Eliane Cantanhêde, colunista de O Estado de S. Paulo e Ricardo Noblat, colunista de O Globo.

    Não deu outra. Com esse renomado time o que deveria ser uma entrevista para esclarecer a opinião pública virou peça de propaganda para Temer. Fui tudo tão escancarado que o compositor e escritor Chico Buarque não aguentou e encaminhou uma notificação extrajudicial pedindo a retirada de sua música da trilha sonora do programa.

    Roda Viva (Chico Buarque) 

    Apesar de a direção da emissora afirmar que a retirada da canção Roda Viva não diz respeito ao pedido do autor da música e da peça homônima, de 1967, o artista falou aos Jornalistas Livres sobre o assunto e divulgou a notificação, assinada por seu advogado.

    “A Lei 9.610/98, também conhecida como Lei de Direitos Autorais, determina, no seu artigo 22, que ‘Pertence ao autor os direitos morais e patrimoniais sobre a obra que criou’. Reconhece a melhor doutrina que ao autor a lei reserva prerrogativas de natureza patrimonial ou econômicas e moral. As prerrogativas morais, também conhecidas por direitos morais do autor, integram a categoria dos direitos da personalidade”, diz trecho da notificação (leia a íntegra aqui).

    Inclusive circula pelo site Avaaz uma petição pedindo a retirada da música do programa. “Ao romper descaradamente com a democracia e o compromisso com a informação, assumindo o papel de agência de publicidade, o programa não merece mais carregar como nome de batismo o título, e como música de abertura a ilustre canção de um artista que jamais virou as costas para a democracia e os interesses do povo brasileiro: Chico Buarque”, diz trecho do abaixo-assinado (assine aqui).

    Com toda essa polêmica vazou nas redes sociais a nova trilha sonora do ex-programa de jornalismo, que está no ar na emissora pública do estado de São Paulo desde 1986. Ouça abaixo a nova música, muito mais afeita ao caráter do programa apresentado por Augusto Nunes.

    Nova trilha sonora do programa da TV Cultura (Amigos do peito, música do grupo infantil Balão Mágico) 

    A música e a peça Roda Viva foram escritas no conturbado ano de 1967 e viraram uma guinada na carreira de Chico Buarque. Em um ensaio da peça dirigida por José Celso Martinez Correa, o elenco viu o teatro ser invadido por extremistas fascistas do Comando de Caça aos Comunistas para surrá-los. A música e a peça certamente não combinam com a maneira como está sendo conduzido o programa homônimo.

    Portal CTB – Marcos Aurélio Ruy. Foto: Rio News

  • No programa Roda Viva, da TV Cultura, de São Paulo, o advogado de defesa da presidenta, eleita pelo voto popular, Dilma Rousseff, José Eduardo Cardozo arrasou com a tese do impeachment.

    O apresentador do programa, Augusto Nunes, já começou comparando o processo de impeachment atual com o do movido contra o ex-presidente Fernando Collor de Mello, em 1992.

    Cardozo foi enfático ao dizer que no processo contra Collor houve uma Comissão Parlamentar de Inquérito, que comprovou haver “crime de responsabilidade”. Contra a presidenta Dilma, afastada em 12 maio pelo Senado, não há nenhuma investigação anterior e nenhum ilícito comprovado.

    Para ele, existem somente “meros pretextos retóricos”. Por isso, o que está acontecendo é golpe. “Golpe sem armas, sem tanques, mas com o propósito de rasgar a Constituição”, disse.

    Mesmo sob fogo cruzado dos jornalistas, Cardozo continuou firme e defendeu a presidenta da acusação de “oportunismo” sobre a proposta de plebiscito e novas eleições. “A maioria da população quer novas eleições”, afirmou.

    Ele garantiu também que se for necessário levará o processo ao Judiciário. Aí, disse o advogado de Dilma, “a história registrará o posicionamento de cada pessoa”. Quem estará a favor da Constituição e da democracia ou quem abraçará o golpe.

    Assista 

    Marcos Aurélio Ruy - Portal CTB

  • Arte do cartunista Latuff

    Nesta quinta-feira (11) - Dia do Estudante -, a juventude tomou as ruas das maiores cidades brasileiras em defesa de uma educação voltada para o desenvolvimento autônomo do país e dos filhos e filhas da classe trabalhadora.

    “Queremos uma escola de qualidade, voltada para a nossa realidade, não esse fragmento de educação que temos atualmente”, diz Camila Lanes, presidenta da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes). Ela explica que a juventude quer que “a escola seja reinventada e inovada, uma escola sem mordaça”.

    Diz ainda que a maioria dos governadores quer privatizar a educação, assim como é intenção do Ministério da Educação golpista de acabar com os ensinos médio e superior gratuitos. "Nós entendemos que educação dever ser democrática, laica e plural. Além do que não aceitamos tratar a educação como mercadoria", afirma Lanes.

    A professora Marilene Betros, dirigente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), concorda com a líder estudantil. “Importante a manifestação dos estudantes e ainda mais importante saber que eles são contra essa infâmia de ‘Escola Sem Partido’ e defendem que o ensino seja voltado para a realidade das crianças e jovens e as aulas ministradas com liberdade”, afirma.

    Betros cita ainda os Dez Mandamentos do Professor, criado pelo professor de História da América da Universidade de Estadual de Campinas (Unicamp), Leandro Karnal (veja aqui). “Com propostas bastante inovadoras, o Karnal coloca o cerne da questão para desenvolvermos uma educação que contemple o livre pensar”.

    “Karnal defende uma escola plural, onde os estudantes sejam permanentemente ouvidos e orientados pelos professores a buscar o conhecimento e cria uma consciência crítica de tudo o que nos cerca”, reforça Betros.

    Ela cita também a entrevista concedida por ele ao programa “Roda Viva”, da TV Cultura de São Paulo, onde Karnal execrou o projeto reacionário. “Escola Sem Partido é uma asneira sem tamanho, é uma bobagem conservadora, é coisa de gente que não é formada na área” (saiba mais aqui).

    Leia mais

     Projeto ‘escola sem partido’ repete dogmas do nazismo

    Para Lanes, “é humilhante saber que dentro do Congresso Nacional há projetos de lei que desqualificam nossos professores e tentam impor censura aos docentes e aos estudantes”. Ela critica os parlamentares conservadores que “têm medo de debater a questão de gênero nas escolas e assim perpetuam a violência contra as mulheres”.

    Já a professora sindicalista afirma que o projeto “Escola Sem Partido” não tem fundamento pedagógico nenhum e visa apenas e tão somente a doutrinação da juventude por valores misóginos, machistas, homofóbicos e ultrarreacionários”.

    Inclusive pra combater esse projeto, foi criada a Frente Escola Sem Mordaça (veja página aqui) para informar sobre o debate em torno do tema.

    Por isso, diz Lanes, “estamos nas ruas como forma de resistência aos projetos que acabam com a nossa democracia e com os direitos da classe trabalhadora e, no Dia do Estudante, defendemos uma escola que dialogue com o que nós precisamos para termos condições de construir um futuro de justiça, de igualdade e de respeito”.

    O Senado mantém aberta uma consulta pública sobre o Projeto de Lei do Senado 193/2016, de autoria do senador Magno Malta (PR-ES), na qual os votos contra o “Escola Sem Partido” estão em 190.851 e a favor da mordaça aos professores e estudantes 180.433 (até o fechamento desta matéria).

    “Nenhum professor ou professora que tenha compromisso com a educação, seja de esquerda ou de direita, pode apoiar a Lei da Mordaça”, sintetiza Betros. “Não existe educação, sem liberdade, sem diálogo”.

    escola sem mordaca 1

    Saiba porque foi criado o Dia do Estudante

    Em 1927, o 11 de agosto, foi instituído como o Dia do Estudante no Brasil. Data dedicada à criação das duas primeiras faculdades do país, a Faculdade de Direito de Olinda, em Pernambuco, e a Faculdade de Direito do Largo do São Francisco, em São Paulo, em 1827. Por isso, 100 anos depois criou-se o Dia do Estudante. Por causa desse dia, os estudantes de Direito criaram o “Dia do Pendura”, quando iam aos restaurantes e bares pediam refeições e saiam sem pagar a conta. 

    Portal CTB – Marcos Aurélio Ruy

  • A Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil – CTB – defende a realização de eleições livres e democráticas para restabelecer a normalidade institucional e a democracia em nosso país. A Central não apoia formalmente nenhuma das pré-candidaturas, mas não pode se omitir do tratamento dado à pré-candidata à Presidência da República pelo PCdoB, Manuela D’Ávila, no programa “Roda Viva”, da TV Cultura, de São Paulo.

    Ferindo as normas mais elementares do bom jornalismo, essa emissora pública, que deveria ser exemplo de isenção, pluralismo e equidistância entre os partidos e os pré-candidatos, transformou o programa de entrevista em uma espécie de inquisição reacionária contra Manuela D’Ávila, com conteúdo marcadamente ideologizado pelo seu caráter antidemocrático e excludente.

    Exemplo emblemático desse comportamento foi o convite a um assessor de um candidato de extrema-direita para integrar a bancada de entrevistadores. Valendo-se dessa condição e abusando de seu reacionarismo, essa figura não teve o menor pejo em impedir o livre debate de programas e ideias da pré-candidata, o que foi vergonhosamente acompanhado pela maioria dos entrevistadores.

    A altivez, serenidade e clareza das intervenções da candidata se contrapuseram aos comentários conservadores e elitistas da banca de entrevistadores. Além de buscar desqualificar a pré-candidata pela sua condição de mulher, ficou claro para todos que assistiram ao programa o objetivo declarado de impedir que Manuela respondesse às questões formuladas e explicitasse os pontos essenciais de seu programa de governo. Em mais de 60 oportunidades a candidata teve sua fala cortada, de forma abrupta e desrespeitosa.

    Esse malfadado programa de entrevistas, em outros tempos referência do bom jornalismo da TV brasileira, merece a condenação veemente de todos quantos lutam por um Brasil democrático, soberano e socialmente justo. Para chegar a esse patamar, o Brasil necessita de um padrão de civilidade em que, entre outras coisas, os direitos das mulheres sejam plenamente reconhecidos e assegurados e que práticas como a do último programa “Roda Viva” não passem de uma trágica lembrança que esperamos não se repita.

    Por tudo isso, a CTB, por intermédio da sua Secretaria da Mulher Trabalhadora e de toda a direção da Central, se solidariza com a pré-candidata Manuela e deseja sucesso nessa nova tarefa que enfrenta com muita coragem ,talento e determinação. Mais do que nunca, precisamos inserir as mulheres na politica e lutar pela igualdade de gênero, na lei e na vida.

    Grande abraço, Força Manu!

    Adilson Araújo, presidente licenciado da CTB

    Celina Arêas, secretária da Mulher Trabalhadora da CTB

     

  • O jornalismo brasileiro sofreu um apagão na noite desta segunda-feira (25). Não há outra forma de definir a tempestade de estupidez e machismo em que se transformou o Roda Viva sob o comando de Ricardo Lessa.

    O que deveria ser ser uma sabatina com a pré-candidata à presidência Manuela D’Ávila, do PCdoB, tornou-se a vitrine da malícia reacionária que domina a nossa imprensa. Por uma hora, Manuela se viu cercada de jornalistas menos interessados em seu projeto e mais em vê-la tropeçar nas perguntas-pegadinha normalmente direcionadas à esquerda brasileira. Não a levaram a sério. Interromperam-na centenas de vezes.

    Foi o equivalente midiático de um fuzilamento, ao vivo e em cores. No pelotão, estavam o próprio Lessa (mediador), Vera Magalhães (Estadão/Jovem Pan), Letícia Casado (Folha), João Gabriel de Lima (Exame), Joel Pinheiro da Fonseca (não-jornalista do Insper), e Frederico d’Avila (diretor da Sociedade Rural Brasileira) – uma composição questionável, no melhor dos casos, por representar somente tons do conservadorismo nacional.

    Mas talvez, sob o comando de um profissional competente, esse consórcio de oponentes apresentasse à Manuela a chance de confrontar os preconceitos que a impedem de crescer como candidata. Numa realidade em que o mediador do Roda Viva fosse Heródoto Barbeiro ou Paulo Markun, as perguntas teriam chance de serem respondidas, e não seriam transformadas em armadilhas para render manchetes nas redes sociais.

    A maior vítima da hostilidade desta noite não foi Manuela D’Ávila, mas o próprio Roda Viva, e com ele o departamento jornalístico da TV Cultura.

    Para que serve uma entrevista na qual o único objetivo é desestabilizar o entrevistado? Estariam transmitindo de algum porão do DOPS? O grau de desleixo foi tamanho que o próprio mediador pôs-se a rir sarcasticamente de sua convidada quando desistiu de provocá-la. Repetiu 5 vezes a mesma pergunta: “Você considera Lula inocente?”. Em todas ouviu a mesma coisa, e não a deixou terminar.

    Essas foram duas tendências inescapáveis, inclusive: a obsessão por Lula, e o silenciamento sistemático de Manuela no meio de suas falas. O terceiro bloco, pior de todos eles, foi quase todo dedicado ao ex-presidente, e uniu os 6 da bancada em um coro de acusações sem o menor auto-controle. A determinada altura, Manuela disparou atônita: “Vocês gostam de falar mais do que eu”. Por isso, foi chamada de “advogada do Lula”. Foi o momento mais vulgar. A entrevista adquiriu ares de Inquisição, como se quisessem extrair dela a confissão que não conseguiram do líder do PT. Como se quisessem transferir a ela o peso de suas acusações.

    Tentaram também colocar palavras em sua boca. A ela foi perguntado nada menos que três vezes se desistiria de sua candidatura, apesar de negar com firmeza. Machismo exemplar, sob um fino véu investigativo. Criaram paralelos impossíveis entre sua candidatura e os governos de Stalin e Mussolini, ditadores mortos há mais de 60 anos, ancorados em bordões de WhatsApp que deixariam qualquer tio do pavê orgulhoso. Em dois diferentes momentos, Frederico D’Ávila, que participa da campanha de Jair Bolsonaro, tomou minutos para falar da “vida miserável na União Soviética”, e finalmente desaguou na mãe de todas as falácias: “o fascismo é de esquerda”.

    Nenhum membro da bancada foi melhor. Envergonharam o ofício do jornalismo ao basearem suas perguntas em leituras ignorantes e fake news encontradas em redes sociais. O menino Joel, desesperado, acusou-a de criar “discurso de ódio” por criticar a nave-mãe de todos os discursos de ódio, o Movimento Brasil Livre. Minutos antes, havia acusado Manuela de mentir sobre estatísticas que ele mesmo desconhecia. Em outro momento, Frederico tentou desandar uma resposta sobre feminismo para um bate-boca sobre castração química. Vera Magalhães encarnou a ignorância de seus leitores depois de pedir colaborações no Twitter.

    Frederico D’Ávila foi desmascarado por Manuela quando afirmou que a CLT de Getúlio Vargas foi inspirada na Carta Del Lavoro do Benito Mussolini. Resumidamente, ele ficou empurrando uma tese de que o PCdoB havia apoiado uma lei trabalhista que era fascista tentando criar uma confusão para colar a pecha do autoritarismo no PCdoB. Manuela explicou que a lei garante os direitos e que o exercício do apoiador de Bolsonaro era curioso, considerando que é o seu pré-candidato que tem um projeto anti-democrático, defendendo torturadores como o Brilhante Ustra.

    Nenhum jornalista é obrigado a aderir a uma ou outra ideologia, mas espera-se do mais medíocre que saiba se portar diante de uma câmera. Que não precise perguntar: “É machista elogiar sua beleza quando estamos discutindo política?”, como fez Ricardo Lessa. O nível foi este: abismal.

    Manuela D’Ávila sai gigante do programa, após delimitar seu espaço em meio a um inferno de desonestidade intelectual. Já sobre a TV Cultura, pode-se dizer o contrário. Se os próprios jornalistas perderam a capacidade de pensar com coerência, que esperança temos de um debate civilizado até outubro? Este Roda Viva foi o retrato da ruína de nossa profissão.

    Renato Bazan é jornalista e editor de vídeo.

    Os artigos publicados na seção “Opinião Classista” não refletem necessariamente a opinião da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e são de responsabilidade de cada autor.