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Ter, Jun

Militares que deram o golpe em 1964 não são guardiões da democracia brasileira

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Em discurso endereçado aos militares, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) afirmou nesta quinta-feira (7) que democracia só existe se as Forças Armadas "assim o quiserem", uma noção golpista que ignora a história e despreza o povo e as lutas sociais.

A democracia no Brasil foi conquistada e reconquistada, em 1985, pelas mãos do povo, a despeito e contra a vontade e os interesses dos militares que promoveram um golpe de Estado em 1964, apoiados pelos EUA, e só largaram o poder depois da memorável campanha das Diretas Já, com  milhões de brasileiros e brasileiras pedindo democracia nas ruas, quando perderam a batalha presidencial no Colégio Eleitoral.

Lições da história

Convém lembrar que, à época, o candidato dos generais era Paulo Maluf, do PDS (filho pródigo da Arena), que perdeu o pleito indireto no Congresso Nacional para Tancredo Neves. A morte de Tancredo, poucos dias depois de eleito, levou a multidão de volta às ruas (entre 3 a 4 milhões só em São Paulo) e foi o que impediu um novo golpe, garantindo a posse do seu vice, José Sarney, e a transição para a democracia, que infelizmente não foi plena o suficiente para punir torturadores e banir do cenário político nacional o fantasma do fascismo, da ignorância e intolerância, encarnado agora na figura sinistra de Jair Bolsonaro.   

As Forças Armadas nunca foram fiadoras da democracia no Brasil. As lições elementares da história revelam o contrário, infelizmente. Há muito elas servem a interesses reacionários, opostos aos do povo e mesmo aos da nação.

O presidente da extrema-direita fez um rápido discurso na cerimônia no 211º aniversário do Corpo de Fuzileiros Navais, na Fortaleza de São José da Ilha de Cobras, no centro do Rio de Janeiro. Ele descreveu sua vitória nas eleições do ano passado como uma missão, certamente a missão de servir os interesses da burguesia, dos latifundiários e do imperialismo em detrimento do povo e da nação.

“A missão será cumprida ao lado das pessoas de bem do nosso Brasil, daqueles que amam a pátria, daqueles que respeitam a família, daqueles que querem aproximação com países que têm ideologia semelhante à nossa, daqueles que amam a democracia. E isso, democracia e liberdade, só existe quando a sua respectiva Força Armada assim o quer”, afirmou. Note-se que, em nome do alinhamento ideológico (com Donald Trump dos EUA) ele já está causando sérios prejuízos econômicos ao Brasil, comprando encrenca gratuita com a China (simplesmente a maior economia do mundo, que suspendeu investimentos no país) e os países árabes, indignados com o anúncio de que a embaixada do Brasil em Israel será transferida para Jerusalém, em detrimento dos palestinos. Observem a mentira e o cinismo: ele disse que não ia governar com base em ideologias, mas subordina todos os seus gestos e iniciativas à ideologia mais tosca e obscura do planeta, que pode sem erros ser classificada de neofascista.

Fugindo de jornalistas

Bolsonaro discursou por pouco mais de quatro minutos e, como era de se esperar, não atendeu a imprensa após o evento. Ele morre de medo das perguntas incômodas dos jornalistas depois de transformar o Brasil em piada internacional com atitudes destrambelhadas orientadas pelo ódio anticomunista e antipetista e a bizarrisse de postar um vídeo pornográfico no Twitter para caluniar o Carnaval, a maior festa popular do Brasil, que neste ano foi marcada pela hostilidade e oposição ao seu desastrado desgoverno.

Em janeiro, em seu segundo dia de governo e também diante de militares, Bolsonaro havia adotado um discurso na mesma linha. Na ocasião, disse que as Forças Armadas do Brasil são obstáculo para quem quer usurpar o poder no país. “A situação em que o Brasil chegou é prova inconteste de que o povo, em sua grande maioria, quer respeito, quer ordem, quer progresso”, afirmou naquele dia. Que o povo quer ordem e progresso ninguém duvida, mas o presidente da extrema direita é o demônio do caos, do retrocesso e da discórdia.

A repercussão negativa não tardou. Sobre o discurso fascista, o professor Fernando Haddad (PT), que foi candidato nas últimas eleições presidenciais, cobrou uma explicação. "Infelizmente, o presidente não atendeu a imprensa para explicar o raciocínio", escreveu no Twitter. Já a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, não deixou por menos. "Essa pessoa não tem limites na agressividade! A Democracia foi conquistada pela sociedade brasileira. Não é objeto de tutela ou permissão. Terá muita luta pra defendê-la, apesar de vc e seus aliados", disse ela na rede social.

Não é concessão

Para o deputado Orlando Silva, líder do PCdoB na Câmara, a democracia é uma conquista de toda a sociedade brasileira e resulta de uma história complexa e cheia de sacrifícios. “E não é concessão. O presidente da República deveria ser mais cuidadoso quando fala sobre temas-chave da vida nacional. A democracia brasileira precisa ser cultivada”, pontuou.

Líder da Oposição no Senado, Ranfolfe Rodrigues (Rede-AP) também criticou a fala do presidente. “Os equívocos de raciocínio na cabeça de Jair Bolsonaro são tantos que ele confunde o que chama de valores familiares com liberdade e democracia. Presidente, a democracia é soberana! As Forças Armadas têm o dever constitucional de defender a democracia”, destacou.

"Ele ataca a Constituição que diz `Todo poder emana do povo´. Mais uma vez comete crime de responsabilidade e atenta contra a dignidade do cargo. Pior, constrange os militares a assumirem o autoritarismo", escreveu o deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP).

O deputado federal Alexandre Padilha (PT) disse que Bolsonaro cometia um "ataque irreparável" à Constituição ao "tutelar a nossa democracia ao bem dispor dos militares".

Umberto Martins, com informações das agências

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