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Qui, Abr

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Clemente Ganz Lúcio1

A fada da confiança desapareceu do país. Talvez esteja no exterior à procura do pó mágico que encanta agentes econômicos, especialmente empresários e governos, para produzir o crescimento da economia. Enquanto isso, o país arca, desde 2016, com um custo altíssimo. Em 2016 o “novo governo” não teve tempo de reverter o quadro recessivo e o PIB despencou -3,3%, depois de já ter caído, no “velho governo”, -3,5% em 2015. Animados, governos e mercado tinham fé de que a fada da confiança trabalharia para reverter a dinâmica em 2017, mas o resultado foi um crescimento pífio de 1%!

Agora, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) acaba de divulgar que o Brasil cresceu míseros 1,1% em 2018! A expectativa do governo e do mercado, no início do ano passado, era de crescimento que poderia superar 3%. O resultado foi 1/3 do prometido.

Mas não adiante chorar as derrotas. O jogo continua e o que interessa é como está o momento e, mais ainda, o que vem pela frente.

O ritmo de crescimento de 2018 foi mais fraco do que o observado em 2017, portanto, é como se as rodas da economia estivessem perdendo tração. Cabe ressaltar, entretanto, que o crescimento econômico de 2018, apesar de baixo, foi mais bem distribuído entre os segmentos, diferente do ocorrido em 2017, quando concentrou-se no setor agropecuário.

Esse resultado reforça que a dinâmica de saída desse tombo econômico de 2015/16 segue muito aquém daquelas dinâmicas observadas nas saídas de crises anteriores no Brasil. O que acontece?

A recuperação do emprego, além de ser lenta, ocorre com ocupações por conta própria, assalariamento sem carteira de trabalho e postos com baixa remuneração. O consumo das famílias continua inibido, inclusive no uso do crédito. A capacidade ociosa das empresas é grande, o que desestimula investimentos produtivos. A crise fiscal restringe gastos e capacidade de investimento do governo. As importações foram maiores que as exportações, com impacto negativo sobre o PIB. O país terminou o ano patinando em piso escorregadio.

Otimismo! Estamos em 2019! Novo governo, novas esperanças!

Passadas as eleições, o mercado voltou a manifestar expectativa de que a fada da confiança atuaria para promover o crescimento na casa dos 3% em 2019. Depois dos primeiros 60 dias do novo governo, o mercado começa a fazer as revisões para baixo. Parece, inclusive, que a fada está com passagem comprada para nova viagem ao exterior. Em vez de 3% de crescimento em 2019, talvez 2,5%, ou 2,3%, ou 2,0% ou até mesmo menos que 2,0%.

A reforma da Previdência era o pó mágico capaz de mobilizar toda a confiança. Agora, continua poderosa, mas não é mais suficiente. Será preciso muito mais.

O tempo passa, o desemprego continua alto, a precarização e a insegurança aumentam para os milhões de trabalhadores que lutam por uma ocupação e salário. A pobreza volta e cresce. A indústria definha. A economia mundial imbica para baixo. O governo briga com parceiros comerciais internacionais.

Mas o poder quase entorpecente do mercado insiste em afirmar que há fada e que o pó do crescimento virá no próximo evento: depois da reforma da previdência; em seguida, depois da desvinculação do orçamento público; e depois de proclamada a independência do Banco Central; e, então, após mudanças no FGTS, no FAT, no seguro-desemprego no abono salarial; depois do fim da política de valorização do salário mínimo; e daí, após a implantação da carteira de trabalho verde e amarela; depois de intensificar ainda mais o ataque aos sindicatos; após o avanço das privatizações, da venda de terras, riquezas e empresas aos estrangeiros; depois de iniciar a exploração de minérios em terra indígenas.

A vida é muito dura para quem sonha e luta por um país desenvolvido e justo. O futuro, para quem está na batalha, se faz no eterno presente em construção. A história ensina muito, mas o que move os lutadores a enfrentar os pesadelos é a capacidade de enunciar uma utopia para o novo tempo, que virá. Fadas são, como o Saci-Pererê, lendas. Para os que creem na justiça, na solidariedade e na igualdade, só resta a luta, juntos, sempre.

 

Sociólogo e diretor técnico do DIEESE.

 

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