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Sáb, Set

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Vivemos em um tempo em que ser mulher é motivo de inquisição em programa de televisão – como demonstrou, nesta semana, o Roda Viva, espaço em que a política deveria ser o centro do debate.

Quero expressar toda a minha admiração e sororidade à deputada estadual do PCdoB, Manuela D’Ávila que, com sua coragem e capacidade política, se agigantou naquela entrevista em que a misoginia e o anticomunismo foram a tônica das perguntas.

Tenho convicção de que o povo quer ouvir as propostas do projeto de desenvolvimento para o Brasil, quer propostas de como sair desta crise econômica, política e institucional e não ouvir perguntas absurdas e machistas sobre a beleza da candidata.

Agora, imaginem ser mulher e ser lésbica neste contexto ultraliberal e conservador que vivemos neste golpe!

Sempre foi proibido desejar outra mulher e, ainda hoje, a sociedade e os “moralistas de plantão” consideram o amor entre duas mulheres um “pecado”, um “desvio”, uma “anormalidade”, um desejo proibido.

Nos dias de hoje, os fundamentalistas que estão representados no Congresso Nacional pelas bancadas do Boi, da Bala e da Bíblia ainda afirmam que o divórcio é uma praga, que o aborto é um crime e entendem que o grande papel da mulher é procriar e cuidar da família, e que as lésbicas, as bis, as travestis, as transexuais e os gueis são pessoas que necessitam de “ajuda” da medicina, dos exorcistas ou da polícia.

Um pouco da nossa história!

A história de mulheres que amam outras mulheres não representa nenhuma novidade em nossa sociedade, já que a origem do termo lésbica provém da de Lesbos, ilha grega da Ásia Menor, marcada pela presença de Safo (século VII a.C), poetisa de talento excepcional cuja inspiração era insuflada pela paixão e desejo por mulheres. Sua obra foi queimada e reduzida a fragmentos por sua orientação sexual e pela devoção às deusas gregas. As mulheres nascidas em Lesbos eram chamadas de lésbicas.

No Brasil, no século XVI, Felipa de Souza foi denunciada ao tribunal do Santo Ofício, na Bahia, por “práticas diabólicas”. Entre essas práticas, fazer amor com mulheres. Sua punição foi severa: a humilhação e o açoite públicos seguidos pelo exílio e morte.

Hoje, no século XXI, pode-se dizer que muita coisa mudou, em decorrência da luta, da organização e da resistência das mulheres LBT.

As mulheres lésbicas, bissexuais e trans brasileiras não são açoitadas em praça pública e não podem ser legalmente punidas por suas escolhas afetivas e sexuais. No entanto, o preconceito e a consequente discriminação seguem impedindo o exercício de liberdades fundamentais, matando e violando os direitos humanos das mulheres lésbicas, bissexuais e transexuais.

Enganam-se os (as) que ainda pensam que nós, lésbicas/feministas emancipacionistas, nos tornamos cidadãs fazendo as nossas lutas especificas, por conquistas de direitos civis, sociais e políticos para as mulheres LBT.

Nossa luta pela conquista da cidadania passou e passa pela nossa participação nos movimentos democráticos pela Independência do País, contra o crime brutal da Escravatura, pela República, contra o Estado Novo, pela paz, contra a Ditadura Militar, pela Anistia, contra a Carestia, pelas Diretas Já, contra o Racismo, pela Constituinte, contra a corrupção, pelo “impeachment” de Collor, contra a Privatização do Estado, pelas reformas agrária, da mídia, política, da educação, contra o Estatuto da Família, pela autonomia dos movimentos sociais, contra o Estatuto do Nascituro, pelos Direitos da Classe Trabalhadora, pela Descriminalização e Legalização do Aborto; contra a lesbofobia, a bifobia, a homofobia, a transfobia; contra os fundamentalismos; contra a fome; pela laicidade do Estado, pela democracia, pela soberania nacional, pela Petrobras, pelo pré-sal, pela Escola Sem Mordaça, pela não redução da maioridade penal, pela manutenção do gênero na educação em todos os níveis e modalidades de ensino; contra o golpe que retirou a presidenta Dilma e fez com que o Brasil entrasse em uma profunda crise política, institucional, econômica e um projeto ultraliberal e conservador tomasse conta do País.

Dimensões do golpe

O golpe no Brasil tem muitas dimensões e acentua o acirramento da luta de classes, concentrando mais ainda a riqueza em prejuízo da classe trabalhadora.

A crise do capitalismo nos últimos dez anos mostra que a saída dos governos neoliberais, do capital financeiro e especulativo, tem sido o arrocho e o aperto para cima dos(as) trabalhadores(as). A consequência é nítida: aumento da fome, da pobreza, de guerras e conflitos em diversas partes do mundo.

Vivemos uma conjuntura de avanço do conservadorismo e de perda de direitos sociais e trabalhistas historicamente conquistados, seguido do aumento da violência e do controle sobre a vida e o corpo das mulheres, com o aumento do racismo, do feminicídio, da lesbofobia, da bifobia, da homofobia, da transfobia, além da repressão e criminalização aos movimentos sociais e populares, do movimento sindical, das centrais sindicais e da desqualificação e perseguição das esquerdas.

Sabemos que a Reforma Trabalhista acaba com a CLT e, portanto, o negociado vale mais que o legislado. Imaginem que o exército de desempregados (as) aumentará cada vez mais e sem dúvida as mulheres, negros (as), LGBTs, deficientes serão cada vez mais excluídos do mundo do trabalho. O Brasil será um país de “biscateiros” (as).

A dupla jornada de trabalho e a desigualdade salarial são dois dados chocantes da situação das mulheres trabalhadoras no Brasil que se completa com a triste constatação de que a precarização, a terceirização, o trabalho informal e o desemprego tem rosto de mulher e, em sua maioria, o rosto das mulheres negras.

A agenda conservadora e ultraliberal que vem sendo imposta pelo conjunto de valores que ganham muita força com este governo ilegítimo, sem voto popular, que representa e fortalece o patriarcado, a misoginia, o feminicídio, a cultura do estupro e a violência contra as mulheres – negras, lésbicas, bissexuais, transexuais, prostitutas, ciganas, deficientes, enfim, todas as mulheres com suas diversidades e especificidades – precisa ser combatida.

Neste momento de resistência e luta, o principal desafio dos movimentos sociais, populares e sindical é a unidade na luta e elevar a consciência política da classe trabalhadora e de todos os movimentos socias, dando destaque aos movimentos LGBT, na luta para derrotar o golpe, conquistar a democracia que nos foi roubada, resistindo e lutando pela soberania do voto popular e retomar a agenda da classe trabalhadora por um projeto nacional de desenvolvimento com valorização do trabalho, direitos sociais e enfretamento ao machismo, ao racismo e a LGBTfobia.

Precisamos acreditar na nossa capacidade de construir, transformar, revolucionar esta sociedade, que continua oprimindo quem se atreve a “sair da caixinha”, “fugir da regra”, “sair do armário”. O Brasil precisa da nossa coragem!

Silvana Conti é vice-presidenta da CTB-RS licenciada, pré-candidata do PCdoB-RS a deputada federal, é professora, municipária, lésbica, feminista, integrante licenciada do Conselho Nacional LGBT e da direção nacional da UBM.

Os artigos publicados na seção “Opinião Classista” não refletem necessariamente a opinião da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e são de responsabilidade de cada autor.

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