Capacidade de dissuasão e soberania nacional: o debate que volta ao centro da estratégia brasileira

 


Celso Amorim defende fortalecimento da capacidade de defesa do Brasil diante de um cenário internacional cada vez mais instável

Em meio a um cenário global marcado por conflitos armados, disputas geopolíticas crescentes e questionamentos sobre a própria estrutura da ordem internacional construída após a Segunda Guerra Mundial, o assessor especial da Presidência da República para assuntos internacionais, Celso Amorim, reacendeu um debate estratégico que há décadas ocupa lugar sensível na política brasileira: a necessidade de o país desenvolver capacidades de dissuasão para proteger sua soberania.

A declaração foi feita durante o Fórum Internacional de Segurança de 2026, realizado em Moscou, onde Amorim participou de reuniões com autoridades russas e concedeu uma extensa entrevista sobre os desafios contemporâneos da política internacional, a posição brasileira diante das crises globais e os caminhos para a preservação da autonomia nacional.

Ao longo da conversa, o ex-ministro das Relações Exteriores e ex-ministro da Defesa apresentou uma visão abrangente sobre a conjuntura internacional. Comentou os conflitos envolvendo Estados Unidos, Irã, Venezuela e Cuba, relembrou a tentativa brasileira de mediação da questão nuclear iraniana em 2010 e destacou a importância crescente da multipolaridade.

Mas foi ao abordar o tema da soberania nacional que Amorim lançou uma das reflexões mais contundentes da entrevista: para ele, o Brasil não pode confiar exclusivamente em sua tradição pacífica ou em sua vocação diplomática. É necessário possuir instrumentos concretos de dissuasão capazes de elevar o custo de qualquer tentativa de intervenção externa.

Um mundo em transformação

A avaliação de Amorim parte da percepção de que o sistema internacional atravessa uma fase de profundas mudanças. Nas últimas décadas, a expectativa predominante entre muitas potências ocidentais era de que o período pós-Guerra Fria consolidaria uma ordem baseada em instituições multilaterais, integração econômica e resolução negociada de conflitos.

Entretanto, os acontecimentos recentes parecem desafiar essa visão.

Guerras em diferentes regiões do planeta, intervenções militares, disputas por recursos estratégicos, sanções econômicas, bloqueios comerciais e rivalidades tecnológicas passaram a compor um cenário cada vez mais complexo.

Segundo Amorim, a sucessão de crises internacionais demonstra que os mecanismos tradicionais de governança global encontram dificuldades crescentes para impedir confrontos ou mediar soluções duradouras.

Nesse contexto, países de porte médio e grande, mas que não pertencem ao núcleo das potências militares globais, enfrentam desafios particulares. Precisam preservar sua autonomia política e econômica em um ambiente internacional marcado por fortes assimetrias de poder.

A preocupação não se limita aos conflitos atualmente em destaque. Para o diplomata, a dinâmica contemporânea revela uma tendência mais ampla de utilização da força como instrumento de pressão política.

A preocupação com Cuba e Venezuela

Ao comentar os acontecimentos mais recentes na América Latina, Amorim manifestou preocupação especial com a situação cubana e condenou ações militares ocorridas na Venezuela.

Na sua avaliação, soluções impostas pela força tendem a gerar consequências humanitárias severas e raramente produzem estabilidade duradoura.

O assessor brasileiro destacou que Cuba possui um significado histórico e simbólico que ultrapassa suas fronteiras nacionais. Mesmo entre governos que divergem do modelo político cubano, existe o reconhecimento de que qualquer tentativa de mudança imposta externamente poderia provocar sofrimento humano de grandes proporções.

Para ele, a história demonstra que embargos, sanções e pressões prolongadas não produziram os resultados esperados por seus defensores. Por isso, insistir em estratégias coercitivas representa um caminho de alto risco.

A posição brasileira, segundo Amorim, permanece baseada no diálogo e na busca de soluções negociadas, princípio que historicamente orienta a diplomacia nacional.

O caso iraniano e as lições da diplomacia

Um dos trechos mais detalhados da entrevista foi dedicado à tentativa de mediação conduzida por Brasil e Turquia em 2010 para solucionar o impasse envolvendo o programa nuclear iraniano.

Amorim relembrou que a iniciativa não surgiu espontaneamente. Segundo seu relato, ela foi estimulada diretamente pelo então presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que buscava interlocutores capazes de estabelecer canais de comunicação com Teerã.

O diplomata descreveu um processo longo de construção de confiança, envolvendo reuniões sucessivas, negociações complexas e intenso trabalho diplomático.

Naquele momento, Brasil e Turquia conseguiram obter do governo iraniano concessões consideradas difíceis e que respondiam às principais exigências apresentadas pelas potências ocidentais.

Apesar disso, a iniciativa acabou não prosperando.

Para Amorim, a rejeição do acordo revelou divisões internas dentro do próprio governo norte-americano e demonstrou a existência de interesses estratégicos mais amplos em torno da questão nuclear.

Ele argumenta que o fracasso daquela negociação representou uma oportunidade perdida para a construção de uma solução pacífica e duradoura.

Mais do que um episódio histórico, o caso iraniano serve, em sua visão, como exemplo das dificuldades enfrentadas por iniciativas diplomáticas conduzidas por países emergentes em temas considerados centrais pelas grandes potências.

A ascensão da multipolaridade

Outro eixo central das reflexões de Amorim diz respeito ao avanço da multipolaridade.

Nos últimos anos, organizações e mecanismos de cooperação entre países do Sul Global ganharam importância crescente. Fóruns multilaterais passaram a reunir economias emergentes interessadas em ampliar sua influência e diversificar parcerias internacionais.

Nesse contexto, a relação entre Brasil e Rússia ocupa posição relevante.

Amorim afirmou perceber um processo de reaproximação política entre os dois países, especialmente após anos de contatos mais limitados em determinados níveis governamentais.

Segundo ele, existe hoje maior convergência em torno de temas como reforma das instituições internacionais, fortalecimento do multilateralismo e defesa de uma ordem global menos concentrada em poucos centros de poder.

Ao mesmo tempo, o diplomata reconheceu que persistem desafios econômicos importantes. O desequilíbrio da balança comercial entre Brasil e Rússia foi apontado como uma questão que precisa ser enfrentada para que a parceria alcance maior equilíbrio.

Ainda assim, a avaliação geral é de que o momento atual favorece o aprofundamento do diálogo bilateral.

A expansão dos conflitos e a insegurança global

Uma das observações mais impactantes feitas por Amorim refere-se à percepção de que praticamente não existem mais regiões completamente livres de tensões geopolíticas.

Segundo ele, mesmo áreas tradicionalmente consideradas mais estáveis passaram a enfrentar riscos crescentes.

A América Latina, frequentemente descrita como uma das regiões menos militarizadas do planeta, já não estaria imune às turbulências internacionais.

Essa constatação reforça, em sua visão, a necessidade de planejamento estratégico de longo prazo.

O pressuposto de que o Brasil estaria automaticamente protegido por sua localização geográfica, suas relações diplomáticas ou sua imagem pacífica seria insuficiente diante das transformações em curso.

A soberania nacional, argumenta Amorim, depende tanto da capacidade de diálogo quanto da existência de instrumentos que desestimulem eventuais pressões externas.

O conceito de dissuasão

É nesse ponto que surge o conceito de dissuasão, elemento central de sua análise.

No campo das relações internacionais, dissuasão significa a capacidade de convencer potenciais adversários de que uma determinada ação produzirá custos elevados demais para ser considerada vantajosa.

Não se trata necessariamente de buscar superioridade militar absoluta nem de preparar guerras ofensivas.

O objetivo é criar condições para que eventuais agressores concluam que os benefícios de uma intervenção seriam menores do que os prejuízos decorrentes dela.

Amorim argumenta que esse princípio é amplamente utilizado por diferentes países, independentemente de seu tamanho ou poder econômico.

Na sua interpretação, possuir capacidade dissuasória não contradiz uma política externa baseada na paz e na negociação.

Pelo contrário, fortalece a posição de um país na mesa de negociações.

Quando um Estado demonstra capacidade de proteger seus interesses, aumenta sua margem de autonomia e reduz a probabilidade de sofrer coerções externas.

O debate sobre armas nucleares

Questionado sobre a possibilidade de o Brasil reconsiderar sua posição histórica em relação às armas nucleares, Amorim adotou uma postura cautelosa.

Ele lembrou que a Constituição brasileira estabelece restrições claras nesse campo e destacou que existem outros instrumentos capazes de produzir efeitos dissuasórios relevantes.

A discussão ocorre em um momento em que vários analistas internacionais observam o papel desempenhado por capacidades militares avançadas em conflitos recentes.

Mísseis de longo alcance, sistemas de defesa aérea, drones, guerra eletrônica e tecnologias espaciais passaram a ocupar posição central nos cálculos estratégicos das nações.

Nesse contexto, a dissuasão moderna não depende exclusivamente de arsenais nucleares.

Diversas potências regionais desenvolveram mecanismos alternativos capazes de impor custos significativos a eventuais adversários.

A experiência recente de conflitos em diferentes partes do mundo tem alimentado esse debate em vários países.

O exemplo das guerras assimétricas

Para explicar sua visão, Amorim recorreu a exemplos históricos que ilustram a lógica da dissuasão.

Segundo ele, a análise de um conflito não pode se limitar à comparação entre capacidades militares brutas.

A história demonstra que países aparentemente mais fracos podem criar dificuldades significativas para adversários muito mais poderosos.

O caso do Vietnã é frequentemente citado nesse contexto.

Apesar da enorme superioridade militar norte-americana, os custos humanos, políticos e econômicos da guerra acabaram desempenhando papel decisivo no desfecho do conflito.

Mais recentemente, diferentes confrontos mostraram que tecnologias relativamente acessíveis podem produzir impactos relevantes sobre forças muito mais sofisticadas.

A lógica central permanece a mesma: aumentar o custo de uma intervenção.

Quando esse custo se torna elevado o suficiente, a própria decisão de iniciar uma ação militar passa a ser reconsiderada.

Recursos estratégicos e soberania

A discussão ganha importância adicional quando associada à crescente disputa internacional por recursos estratégicos.

O Brasil possui algumas das maiores reservas mundiais de minerais críticos, biodiversidade, água doce, terras agricultáveis e fontes de energia renovável.

Esses ativos tornam o país uma peça relevante nas transformações econômicas e tecnológicas do século XXI.

A transição energética global, por exemplo, ampliou a importância de minerais utilizados em baterias, semicondutores e equipamentos de alta tecnologia.

Ao mesmo tempo, questões relacionadas à Amazônia, à segurança alimentar e à sustentabilidade ambiental colocaram o Brasil em posição de destaque nos debates internacionais.

Nesse cenário, garantir a capacidade de tomar decisões soberanas sobre seus próprios recursos torna-se uma questão estratégica.

Para Amorim, a existência de instrumentos de dissuasão contribui justamente para preservar essa autonomia decisória.

Diplomacia e defesa como complementos

Um dos aspectos mais relevantes da argumentação apresentada pelo assessor presidencial é a recusa da falsa dicotomia entre diplomacia e defesa.

Durante décadas, parte do debate público brasileiro tratou essas áreas como se fossem alternativas mutuamente excludentes.

Entretanto, a experiência internacional sugere que países influentes costumam combinar ambas as dimensões.

Diplomacia eficaz depende de credibilidade política, econômica e estratégica.

Da mesma forma, capacidades de defesa tendem a produzir melhores resultados quando inseridas em uma política externa baseada no diálogo e na cooperação.

Amorim enfatiza exatamente essa complementaridade.

O fortalecimento da capacidade de dissuasão não significaria abandonar a tradição pacifista brasileira.

Pelo contrário, serviria para garantir que a busca por soluções negociadas ocorra a partir de uma posição de maior segurança e autonomia.

O futuro do debate estratégico brasileiro

As declarações de Celso Amorim recolocam em evidência uma discussão que tende a ganhar espaço nos próximos anos.

O avanço da competição entre grandes potências, a fragmentação da ordem internacional e a crescente importância de recursos estratégicos ampliam a necessidade de reflexão sobre os instrumentos de proteção da soberania nacional.

O Brasil continua sendo reconhecido internacionalmente por sua tradição diplomática, por sua defesa do multilateralismo e por sua preferência histórica por soluções pacíficas.

Contudo, a conjuntura global levanta novas perguntas sobre como preservar essa posição em um ambiente cada vez mais competitivo.

A resposta proposta por Amorim combina duas dimensões fundamentais: diálogo e capacidade de dissuasão.

Em sua visão, não basta desejar a paz. É preciso criar condições para que ela seja respeitada.

Num mundo marcado por incertezas crescentes, a soberania não se sustenta apenas por declarações de princípios. Ela depende também da capacidade concreta de proteger interesses nacionais, preservar a autonomia política e aumentar o custo de qualquer aventura intervencionista.

É justamente nesse ponto que, segundo o diplomata, se encontra um dos grandes desafios estratégicos do Brasil no século XXI.

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