Consumo de lenha e carvão nas residências brasileiras atinge menor patamar desde 2016

 


O Brasil vive uma mudança significativa nos hábitos energéticos domésticos. Após três anos consecutivos de declínio, o consumo de lenha e carvão vegetal nas casas brasileiras atingiu em 2025 o nível mais baixo desde 2016. Os dados, divulgados pelo Balanço Energético Nacional 2026 da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), revelam uma queda acumulada de 14% desde o pico histórico registrado em 2022, último ano do governo de Jair Bolsonaro.
Esta reversão de tendência representa um alívio importante para milhões de famílias que, pressionadas pela alta dos preços do gás liquefeito de petróleo (GLP), haviam sido obrigadas a recorrer a fontes energéticas mais precárias e prejudiciais à saúde. O movimento coincide com a recuperação do mercado de gás de cozinha, que voltou a crescer após tocar seu ponto mais baixo em 2023.

Um ciclo vicioso interrompido

A trajetória ascendente do consumo de lenha e carvão começou em 2017 e se intensificou ao longo dos anos seguintes. Em 2022, essas fontes tradicionais alcançaram o maior nível de utilização residencial desde 2009, sinalizando uma regressão preocupante nas condições de vida da população mais vulnerável.
Segundo Eric Gil Dantas, economista do Instituto Brasileiro de Estudos Políticos e Sociais (Ibeps), essa dinâmica está diretamente relacionada ao peso crescente do botijão de gás no orçamento familiar. "Com o botijão mais caro, o seu consumo caiu, mesmo sendo um bem essencial", explica o especialista. A combinação entre a escalada dos preços do GLP e a estagnação da renda empurrou principalmente as famílias de menor poder aquisitivo para alternativas como lenha e carvão vegetal.
Os números confirmam essa correlação inversa. Enquanto o uso de combustíveis sólidos tradicionais despencava, o consumo de gás voltou a ganhar força. A soma de GLP e gás natural, que havia atingido seu ponto mais baixo do período recente em 2023, registrou avanço de 3,4% nos dois anos seguintes. Em 2025, alcançou o segundo maior nível de toda a série histórica, superado apenas pelo ano atípico de 2020, quando o isolamento social imposto pela pandemia de covid-19 elevou excepcionalmente o consumo residencial.

Política de preços da Petrobras no centro da crise

A raiz do problema remonta a 2016, quando a Petrobras adotou uma nova política de formação de preços conhecida como PPI (Preço de Paridade de Importação). Essa medida passou a aproximar os valores praticados no mercado interno das cotações internacionais e da variação cambial. No caso específico do GLP residencial, a estatal começou em 2017 a definir o preço de venda às distribuidoras com base nas cotações internacionais de propano e butano convertidas em reais.
Entre 2016 e 2022, o preço final do GLP subiu impressionantes 49,5% acima da inflação. Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), corrigidos pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) para valores de agosto de 2026, mostram que o preço médio real do botijão de 13 quilos passou de R$ 103,26 em 2018 para R$ 131,60 em 2022. Isso representa uma alta de 27,4% durante o governo Bolsonaro.
No governo Luiz Inácio Lula da Silva, iniciado em 2023, observou-se uma inflexão nessa trajetória. Em 2025, o valor médio do botijão caiu para R$ 113,53, uma redução de 13,7% em relação ao pico de 2022. Apesar dessa melhora, o gás de cozinha ainda não retornou aos patamares anteriores à escalada dos preços. Na comparação com 2017, o botijão custava em 2025, em termos reais, 22,3% a mais.

Auxílio Gás: insuficiente para conter o impacto social

Diante da pressão social gerada pela alta dos preços, o governo Bolsonaro criou em novembro de 2021 o programa Auxílio Gás dos Brasileiros. A iniciativa previa inicialmente um pagamento bimestral equivalente a 50% do preço médio nacional do botijão de 13 quilos, atendendo cerca de 5,5 milhões de famílias em situação de vulnerabilidade.
A cobertura integral do valor médio do botijão só foi implementada no segundo semestre de 2022, ano eleitoral marcado por intensa disputa política. Uma emenda constitucional promulgada em julho daquele ano acrescentou, até 31 de dezembro, uma parcela extraordinária de outros 50% ao benefício. O programa repassou R$ 290,2 milhões em 2021, quando houve apenas um pagamento em dezembro, e R$ 1,9 bilhão em 2022.
Contudo, os dados demonstram que o subsídio não foi suficiente para neutralizar completamente os efeitos da alta do GLP e da estagnação da renda sobre o orçamento das famílias mais pobres. Entre 2021 e 2023, o consumo residencial do combustível caiu 2,6%, enquanto o uso de lenha e carvão permaneceu próximo do pico do período. "Isto é, o subsídio não bastou para conter o efeito da alta do GLP e da estagnação da renda sobre o orçamento das famílias mais pobres", afirma Dantas.

Privatizações ampliam disparidades regionais

Outro fator que contribuiu para a distorção dos preços foi o processo de privatização de refinarias da Petrobras. Segundo levantamento realizado pelo economista Eric Gil Dantas, em 2022 a Acelen, que assumiu a antiga Refinaria Landulpho Alves na Bahia, já vendia GLP às distribuidoras por um preço 6,1% superior ao praticado pela estatal.
Essa diferença se ampliou significativamente nos anos seguintes. Em 2026, segundo os cálculos de Dantas, o GLP vendido pela Acelen às distribuidoras estava 38,2% acima do preço da Petrobras. Na Atem, que controla a antiga Refinaria de Manaus (Reman), a diferença chegava a 38,1%. Já na Brava, responsável pela antiga Refinaria Potiguar Clara Camarão no Rio Grande do Norte, o diferencial era de 11,6%.
Parte dessa distância está relacionada ao fato de a Petrobras manter desde julho de 2024 o mesmo preço de venda do GLP às distribuidoras, enquanto as refinarias privatizadas continuaram realizando reajustes frequentes. No preço final pago pelo consumidor, que também incorpora impostos e margens de distribuição e revenda, o Amazonas serve como exemplo emblemático. Desde a privatização da Reman em 2022, o preço do botijão no estado subiu 4,9% acima da inflação. No mesmo período, a média dos estados que possuem refinarias da Petrobras registrou queda real de 5,3%.

Impactos na saúde e no meio ambiente

O retorno ao uso de lenha e carvão nas residências traz consigo uma série de consequências negativas que vão além do aspecto econômico. Do ponto de vista da saúde pública, a queima desses combustíveis em ambientes fechados ou mal ventilados está associada a problemas respiratórios, doenças cardiovasculares e aumento da mortalidade infantil.
Estudos da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que a poluição do ar interior causada pela queima de biomassa é responsável por milhões de mortes prematuras anualmente em todo o mundo. No Brasil, embora não existam estatísticas específicas consolidadas, especialistas alertam para o agravamento das condições de saúde em comunidades que dependem dessas fontes energéticas.
Do ponto de vista ambiental, o aumento do consumo de lenha pressiona as florestas nativas e contribui para o desmatamento ilegal. O carvão vegetal, por sua vez, frequentemente tem origem em processos produtivos irregulares que envolvem trabalho escravo e devastação de áreas protegidas. A redução observada nos últimos anos representa, portanto, não apenas uma melhoria nas condições de vida das famílias, mas também um avanço na proteção ambiental.

Perspectivas para o futuro

A tendência de queda no consumo de lenha e carvão deve continuar nos próximos anos, desde que se mantenha a estabilidade nos preços do gás de cozinha e haja crescimento sustentado da renda familiar. Especialistas destacam a importância de políticas públicas estruturais que garantam o acesso universal a fontes energéticas limpas e acessíveis.
Além disso, há espaço para ampliação do uso de alternativas renováveis, como energia solar e biogás, especialmente em áreas rurais onde o acesso ao GLP ainda enfrenta desafios logísticos. Programas de eficiência energética e substituição de fogões antigos por modelos mais eficientes também podem contribuir para reduzir o consumo de combustíveis poluentes.
O caso brasileiro ilustra como decisões de política econômica e energética têm impacto direto na qualidade de vida da população. A experiência dos últimos anos demonstra que a proteção do poder de compra das famílias e o controle estratégico de setores essenciais, como o de combustíveis, são fundamentais para garantir direitos básicos e promover desenvolvimento social inclusivo.
Enquanto o país celebra a queda no uso de fontes energéticas precárias, permanece o desafio de construir um modelo energético verdadeiramente sustentável, acessível e justo para todos os brasileiros.

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