Investigação revela possível conexão entre emendas parlamentares e produtora cinematográfica, contrariando declarações de Flávio Bolsonaro sobre ausência de recursos públicos no longa
Uma investigação conduzida pela Polícia Federal trouxe à tona indícios contundentes de que recursos públicos podem ter sido direcionados à produtora responsável pelo filme Dark Horse, obra biográfica sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. As descobertas contradizem frontalmente as afirmações públicas do senador Flávio Bolsonaro, que repetidamente negou qualquer utilização de verbas governamentais na produção cinematográfica.
A operação policial, batizada de Make Up e deflagrada na quinta-feira, dia 10 de setembro de 2026, representa um marco significativo na apuração de possíveis desvios de dinheiro público destinado originalmente a projetos sociais. A decisão judicial que autorizou as buscas foi assinada pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, e detalha uma complexa rede de transações financeiras que levaram os investigadores a suspeitar de irregularidades graves.
As Declarações Contraditórias de Flávio Bolsonaro
Ao longo dos últimos meses, Flávio Bolsonaro manteve uma postura firme ao afirmar que o filme sobre seu pai seria financiado exclusivamente por iniciativa privada. Em maio deste ano, durante explicações sobre a captação de recursos para a produção, o senador classificou o empreendimento como "patrocínio privado para um filme privado", enfatizando categoricamente que haveria "zero de dinheiro público" envolvido.
A posição foi reiterada em 30 de agosto, quando Flávio declarou publicamente que uma perícia contábil realizada nas contas do longa-metragem havia confirmado a inexistência de recursos públicos ou de qualquer ilegalidade. "Não tem nada de dinheiro público e nada de ilegal", afirmou o parlamentar na ocasião. Contudo, os documentos da Polícia Federal revelam um cenário substancialmente diferente daquele apresentado pelo senador.
O Caminho Financeiro Investigado pela PF
Os investigadores identificaram um trajeto financeiro que conecta emendas parlamentares indicadas pelo deputado federal Mario Frias, do Partido Liberal de São Paulo, à Go Up Entertainment, empresa responsável pela produção do filme Dark Horse. A análise começou pelo Instituto Conhecer Brasil, organização da sociedade civil presidida por Karina Gama, que recebeu aproximadamente R$ 2 milhões em emendas parlamentares indicadas por Frias.
Parte significativa desses recursos foi utilizada para contratar empresas vinculadas a Heric Dias, empresário que também mantém relações comerciais com a NTT Brasil. As empresas pertencentes a esse núcleo empresarial receberam cerca de R$ 700 mil do instituto. Posteriormente, a NTT Brasil efetuou uma transferência no valor de R$ 750 mil diretamente para a Go Up Entertainment, companhia igualmente comandada por Karina Gama.
Para a Polícia Federal, a proximidade entre os valores transferidos, a sequência cronológica das operações e os vínculos societários entre as empresas envolvidas constituem elementos relevantes para sustentar a hipótese de que recursos originados de contratos financiados com dinheiro público tenham sido redirecionados à produtora cinematográfica. Os investigadores ressaltam, porém, que ainda não é possível afirmar com certeza absoluta que os R$ 750 mil recebidos pela Go Up sejam exatamente os mesmos recursos pagos anteriormente pelo Instituto Conhecer Brasil.
Coincidência Temporal Suspeita
Um aspecto que fortalece as suspeitas dos investigadores é a coincidência temporal entre as movimentações financeiras analisadas e o período de produção do filme. A Polícia Federal constatou que a Go Up Entertainment movimentou aproximadamente R$ 19 milhões entre novembro e dezembro de 2025, intervalo que coincide precisamente com as filmagens do longa-metragem, realizadas entre outubro e dezembro do mesmo ano.
Além dos R$ 750 mil provenientes da NTT Brasil, a produtora recebeu outros R$ 645,4 mil enviados diretamente por Mario Frias durante esse período. A própria documentação da PF destaca explicitamente essa sincronia temporal como elemento relevante para a investigação. Entre as despesas registradas pela Go Up nesse intervalo estão pagamentos significativos, incluindo R$ 906 mil destinados ao Hotel Unique, R$ 653 mil aplicados em serviços de alimentação e diversos repasses a empresas do setor audiovisual.
Para os investigadores, a natureza dessas despesas demonstra compatibilidade com custos típicos de uma produção cinematográfica de grande porte, reforçando a conexão entre os recursos financeiros analisados e a efetiva realização do filme.
Estrutura Complexa de Empresas Interligadas
A teia empresarial investigada pela Polícia Federal revela uma estrutura sofisticada de entidades aparentemente independentes, mas conectadas por relações societárias e pessoais. O Instituto Conhecer Brasil, presidido por Karina Gama, funcionou como ponto inicial do fluxo financeiro, recebendo as emendas parlamentares indicadas por Mario Frias.
As empresas contratadas pelo instituto, todas vinculadas a Heric Dias, serviram como intermediárias no processo. A NTT Brasil, outra empresa ligada a esse mesmo núcleo empresarial, atuou como elo final antes dos recursos chegarem à Go Up Entertainment. Essa cadeia de transações permitiu que o dinheiro percorresse múltiplas entidades antes de alcançar seu destino final, dificultando o rastreamento direto da origem pública dos recursos.
A Polícia Federal passou a investigar se esses repasses poderiam representar uma forma de restituição de valores ao próprio núcleo da organização da sociedade civil, caracterizando um esquema em que recursos dos contratos retornariam, por vias alternativas, a empresas relacionadas às pessoas que controlavam as entidades originalmente beneficiadas pelas emendas parlamentares.
Crimes Investigados na Operação Make Up
A Operação Make Up investiga uma série de crimes graves, incluindo peculato, lavagem de dinheiro, falsidade documental, formação de organização criminosa e delitos relacionados a licitações públicas. Os mandados de busca e apreensão foram cumpridos contra Mario Frias, Karina Gama e outros investigados envolvidos na trama.
Além do desvio de recursos, a Polícia Federal apura a produção posterior de contratos, orçamentos e outros documentos que teriam sido elaborados para conferir aparência de regularidade a transações já realizadas. Essa prática, conhecida como criação de documentação falsa retroativa, representa tentativa de ocultar irregularidades e dificultar a ação dos órgãos de controle.
Tanto Mario Frias quanto Karina Gama negam veementemente a existência de quaisquer irregularidades em suas atividades. Os investigados sustentam que todas as operações foram realizadas dentro dos parâmetros legais e que não houve desvio de finalidade dos recursos públicos recebidos.
Impacto Político e Social da Investigação
O caso ganha especial relevância considerando o perfil político dos envolvidos e o contexto nacional. Mario Frias é deputado federal influente e figura próxima ao governo federal, enquanto o filme Dark Horse trata da trajetória política de Jair Bolsonaro, ex-presidente da República e pai do senador Flávio Bolsonaro. A possibilidade de que recursos públicos tenham sido utilizados para financiar uma obra com claro viés político gera questionamentos profundos sobre o uso adequado do dinheiro dos contribuintes.
Organizações da sociedade civil e especialistas em transparência pública destacam que emendas parlamentares devem ser destinadas prioritariamente a projetos sociais, educacionais e de saúde, conforme determina a legislação brasileira. O suposto desvio desses recursos para fins particulares ou políticos representa violação grave aos princípios constitucionais da administração pública.
Próximos Passos da Investigação
A Polícia Federal continua trabalhando na consolidação das provas e na identificação de todos os envolvidos no esquema. Os documentos apreendidos durante a Operação Make Up serão minuciosamente analisados pelos peritos criminais, que buscarão estabelecer conexões definitivas entre as transações financeiras e eventuais irregularidades.
O Ministério Público Federal deverá receber o relatório final das investigações para decidir sobre a apresentação de denúncias formais contra os investigados. Caso confirmadas as irregularidades, os responsáveis poderão enfrentar processos criminais e ações de improbidade administrativa, com possibilidade de condenações severas e obrigação de ressarcimento dos valores desviados.
A sociedade brasileira acompanha com atenção o desdobramento deste caso, que pode revelar falhas sistêmicas nos mecanismos de controle do uso de emendas parlamentares. Especialistas defendem a implementação de sistemas mais rigorosos de fiscalização e transparência para prevenir situações similares no futuro, garantindo que os recursos públicos sejam efetivamente aplicados em benefício da população.
A investigação da Polícia Federal representa um passo importante na luta contra a corrupção e o mau uso do dinheiro público, demonstrando que os órgãos de controle continuam vigilantes e comprometidos com a defesa do patrimônio nacional, independentemente do status político dos envolvidos.

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